Rusalka over the rainbow

Rusalka (1901) é a mais popular das dez óperas do compositor checo Antonín Dvořák (1841-1904). A sua obra enquadra-se dentro das estéticas nacionalistas que surgírom na segunda metade do XIX como reação contra a hegemonia da música alemã. Aliás, acho que de ter sido alemão ou austríaco a consideração da sua obra seria ainda mais elevada. Além das suas óperas, foi um brilhante cultivador de todos os géneros com o máximo nível de qualidade, como a música sacra (Requiem, Stabat Mater), a música de câmara, a canção de concerto e, sobretudo, a sinfonia. De facto, a sua obra mais interpretada é a última delas, a novena, conhecida como “Do novo mundo”, composta nos EUA e baseada no folclore deste pais. Aproveito para lembrar que este movimento musical nacionalista também se deu na Galiza graças a grandes compositores como Marcial del Adalid (1826-1881), Juan Montes (1840-1899) ou José Baldomir (1867-1947).

Antonín Dvořák era o filho dum carniceiro do pequeno lugar de Nelahozeves. A lógica intenção do pai era que continuasse com o negócio familiar e, para prosperar, como estavam baixo o domínio do império austro-húngaro, enviou-no a aulas privadas de alemão para que aprendesse esta língua. No entanto, resultou que o professor escolhido era também músico e, perante as dotes musicais do pequeno e o seu interesse em aprender música, foi esta disciplina a que realmente aprendeu sem o conhecimento do pai.

Na mitologia eslava, Rusalka é um espírito das águas que mora em rios ou em lagos em quem se baseou Jaroslav Kvapil para escrever o libreto da ópera. A personagem que intitula o drama costuma ser interpretada por uma soprano lírica ou spinto. A sua ária dedicada à lua é talvez o momento mais célebre desta obra. De facto, na sua melodia inspirou-se subtilmente o compositor Harold Arlen para o refrão da canção “Over the rainbow” pertencente ao filme The Wizard of Oz (1939) como podemos comprovar no minuto 1:25 desta versão. Continuando com a nossa linha de reivindicar grandes vozes do passado, propomos a soprano eslovaca Lucia Popp, especialmente reconhecida por papéis mozartianos mas também de outros autores como Richard Strauss. Nesta ligação podes seguir o texto original checo e uma tradução.

 

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É toda a ópera bel canto?

Estamos costumad@s a escutar a expressão ‘bel canto’ [canto belo] como sinônimo de ópera, mas o certo é que só se deve utilizar para referir-nos a uma etapa da ópera italiana que se origina no século XVII e que culmina na primeira metade do XIX, com as obras de Gioacchino Rossini, Vincenzo Bellini e Gaetano Donizetti.

O estilo belcantista carateriza-se polo predomínio de formosas melodias cheias de adornos, em detrimento de uma orquestra que se mantém num segundo plano, e que concluem com virtuosísticas cadenzas. Habitualmente escolhem-se peças espetaculares para mostrá-lo, mas preferim fazê-lo com esta delicadíssima ária “Ah, non credea mirarti” que canta a Amina, a protagonista de La Sonnambula (1831) de Bellini, interpretada nesta gravação pola Maria Callas. A seguir da reprodução e do texto daremos uma pequena explicação.

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Violetta Valery

A ópera nasce a princípios do século XVII fruto do interesse duns intelectuais italianos ligados a um grupo chamado Camerata Bardi. Sabiam que os dramas da Grécia clássica se representavam cantados, e trabalhárom por encontrar uma fórmula que lhes permitisse recuperar o género. O mito de Orfeu foi o predileto para levar à cena musical, como figêrom Jacopo Peri, Giulio Caccini e, sobretudo, Claudio Monteverdi. Durante quase dous séculos a ópera vai-se surtir fundamentalmente de temas mitológicos até a chegada do Romantismo quando se incorporam também histórias procedentes de diversos períodos do passado.

Giuseppe Verdi era uma pessoa comprometida com o ser humano do seu tempo, além duma figura de grande carga simbólica no processo de unificação da Itália. Isto provocou-lhe não poucos problemas com a censura. Em Un ballo in maschera tivo de substituir a figura dum rei por um governador pois considerava-se inaceitável levar um regicídio ao palco. Em Rigoletto o vicioso rei de Victor Hugo passou a ser um duque, assunto do qual já falámos anteriormente.

O libreto de Francesco Maria Piave recolhe o fundamental de A dama das camélias de Alexandre Dumas, isto é, uma história contemporânea duma prostituta de alta sociedade que morre sozinha e abandonada por causa da hipocrisia da época. E esta alta sociedade foi a que assistiu à primeira representação de La Traviata no teatro La Fenice de Veneza em 6 de março de 1853. A estreia foi um autêntico insucesso, talvez por uma conjunção de maus intérpretes e dum tema que retratava algumas das misérias da sociedade do momento.

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Ángeles Gulín

O primeiro comentario dedicado a uma das grandes vozes da história recente tinha que ir para Ángeles Gulín. A Galiza tende a ser um pais pouco preocupado com os seus artistas que não aparecem na história oficial de nenhuma das duas ideologias dominantes, por isso a maior parte da sua gente desconhece que era galega uma das vozes mais singulares do século XX.

Ángeles Gulín (Ribadávia, 1939-Madrid, 2002) tinha uma voz era colossal, duma sonoridade imensa e homogeneamente redonda no agudo e no grave, o que se chama uma soprano dramática. Este tipo vocal é escaso em quantidade de vozes puras mas nao no repertório, especialmente na obra de Verdi, Wagner e dos compositores veristas mas temos exemplos anteriores como Norma de Bellini, Maria Stuarda de Donizetti ou mesmo a própria Rainha da Noite de Die Zauberflöte de Mozart, papel este com o que debutou a Gulín.

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