O legado de Nikolaus Harnoncourt

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Não lembro exatamente qual foi a primeira gravação que conhecim de Nikolaus Harnoncourt, duvido entre un Apollo e Dafne de Händel e um Magnificat de Bach, mas não é um dado particularmente relevante. Ontem morreu um mestre não só da música antiga senão também de outros estilos mais distantes no tempo, do mesmo jeito que um bom tenista chega sempre às finais de qualquer competição independentemente de que tenha mais ou menos costume de jogar num tipo de superfície concreta.

Pertenço a um grupo de música antiga que se chama Herbens Consort, em que utilizamos instrumentos de época apesar de que não consideremos sejam necessários para interpretar boa música barroca ou clássica, mas esta afirmação não se poderia fazer hoje com tanta claridade sem o trabalho prévio começado nos anos 50 do século passado polos Harnoncourt, Leonhardt ou Brüggen. Graças a eles, pudemos aproximar-nos a como eram as cores, os ataques, as dinâmicas ou as intensidades que tinham na cabeça os Monteverdi, Vivaldi, Bach ou Mozart quando compunham, e conhecer como soavam os instrumentos naquela altura.

Este legado fica hoje tanto para músicos que continuam a utilizar instrumentos de época quanto para os que preferem tocar com as correspondentes versões modernas. Além disto, Harnoncourt era um génio absoluto, capaz de localizar numa partitura detalhes nos que centos de intérpretes não repararam durante vários séculos, vejam-se, por exemplo todos os elementos extra-musicais que pode localizar na parte orquestral numa ópera tantas vezes representada como Così fan tutte. E era também um investigador inconformista, que com a mesma honradez que chegava a uma conclusão, podia chegar a outra diferente tempo depois, como nos tipos vocais seleccionados para personagens de óperas. 

Harnoncourt não era um músico limitado que quigesse meter-se num covil -o imprescindível Concentus Musicus Wien que criou em 1953- no que se pudesse tornar numa autoridade absoluta. Aliás, dirigiu com grande autoridade grandes orquestras como a Filharmónica de Berlim, a Filharmónica de Viena ou a Concertgebouw de Amsterdão com magistrais interpretações das sinfonias de Beethoven ou de Bruckner.

Proponho esta gravação do Orfeo de Monteverdi, peça com a que nasce a ópera num sentido moderno pois, da mesma maneira que Monteverdi soube ver outras possibilidades nesse género que se estava a criar além do que faziam os seus contemporâneos da Camerata Bardi, Harnoncourt mostrou-nos muitas cousas que estavam nas partituras mas que éramos incapazes de ver. O seu legado vai ficar com certeza durante gerações de intérpretes ao serviço do engrandecimento da obra dos grandes compositores da História da Música.

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