De Fígaro a Fígaro

É frequente que, ao mencionar a ópera As bodas de Fígaro de Mozart a pessoa que tenho diante comece a repetir a célebre fórmula “figarofigarofigarofigaro…”. Trata-se do mesmo personagem? Sim, mas com matizes…

Em realidade é o mesmo Fígaro, que pertence à trilogia de Pierre de Beaumarchais composta polas obras Le Barbier de Séville (1775), La Folle Journée, ou le Mariage de Figaro (1784) e L’Autre Tartuffe, ou la Mère coupàble (1790). Em Le nozze di Figaro [As bodas de Fígaro] Mozart começa uma brilhante colaboração com o escritor italiano Lorenzo da Ponte, quem vai ser o autor do libretto desta ópera -baseado na segunda das obras de Beaumarchais- e depois de Don Giovanni e de Così fan tutte. O texto de Le nozze tivo de superar diversas dificuldades, pois foi proibido polo censor devido às críticas à aristocracia. Trás eliminar da Ponte um discurso de Fígaro crítico com os privilégios hereditáros da nobreza e modificar outros elementos, o imperador José II autorizou a sua representação no Burgtheater de Viena em 1 de maio de 1786. Não esqueçamos que Mozart era defensor dos princípios do pensamento iluminista.

Trinta anos depois vai ser Rossini quem ponha música a Le Barbier de Séville com o título Almaviva o sia l’inutile precauzione, que se popularizaria com o nome de Il barbiere di Siviglia. Não padeceu tanto os problemas da censura mas sim a resistência prévia do público, que considerava um sacrilégio que se atrevesse a fazer uma ópera com o mesmo argumento utilizado por Giovanni Paisiello em Il barbiere di Siviglia, ovvero la precauzione inutile, estreada em 1782.

Fígaro é um barbeiro de Sevilha que, no primeiro livro -o adaptado por Paisiello e por Rossini- ajuda o Conde Almaviva a obter a mão da Rosina, que vive sequestrada na casa do seu tutor e pretendente Bartolo. Na segunda parte o Conde torna em rival do Figaro pois pretende exercer o direito de pernada com a Susanna, a namorada do Barbeiro. A terceira parte não vai ser adatada até 1966, ano da representação de La mère coupable, com música de Darius Milhaud e libretto de Madeleine Milhaud.

A cavatina “Largo al factotum” é uma das peças mais célebres da história da ópera. O Fígaro rossiniano está concebido para um barítono lírico, isto é, com facilidade as agilidades e para ir com frequência ao agudo. No entanto, também é uma peça utilizada por barítonos de registo mais dramático -como vemos nesta gravação de Leo Nucci- para mostrarem as suas qualidades técnicas.

“Non più andrai farfallone amoroso” é uma ária que fecha o primeiro ato de As bodas de Fígaro. Talvez seja uma das melodias preferidas de Mozart, pois ele mesmo volve citá-la no finale de Don Giovanni junto com outros fragmentos de óperas populares na altura. Apesar de que na época de Mozart as vozes masculinas só se denominavam “tenor” e “baixo”, não todos os papeis mozartianos de baixo podem ser cantados por qualquer baixo nem os de tenor qualquer tenor. O tipo ótimo para Fígaro é o que hoje conhecemos por baixo-barítono, situado na fronteira dos dous registos e que seria potenciado a meados do XIX por Richard Wagner com personagens como Wotan ou Holländer. No entanto, esta vez vou escolher um baixo, um grandíssimo baixo como Cesare Siepi para ilustrar esta peça.

E imos concluir com mais excecionalidades: um mesmo barítono, Hermann Prey, que interpretou os dous papéis. Bom proveito!

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Cinco momentos que che farão adorar Don Giovanni

Il dissoluto punito, ossia il Don Giovanni é uma das três óperas que Wolfgang A. Mozart escreveu sobre um texto de Lorenzo da Ponte. Trata do mito de Don Juan e foi estreada em Praga em 1787. Apesar de ser catalogada como dramma giocoso, o certo é que as partes dramáticas têm muito mais peso que as cómicas.

Mozart escreveu o papel protagonista pensando no cantor Luigi Bassi, um barítono bastante ligeiro de reconhecida elegância e bom gosto. No entanto, a centralidade do registo deste rol (nem mui agudo nem mui grave, o qual não significa que seja um papel fácil) permitiu que fosse (e seja) defendido magnificamente por baixos como Nicolai Ghiaurov ou Cesare Siepi; por baixo-barítonos como George London ou Ruggero Raimondi e por barítonos mais líricos como Dietrich Fischer-Dieskau ou Thomas Allen. Como muitos dos tipos vocais que conhecemos atualmente são fruto da ópera romântica, não nos devemos estranhar da variedade de intérpretes e de vozes que podemos ver nas óperas do génio de Salzburgo.

Logicamente, numa ópera que dura em torno de três horas poderíamos recomendar muitos outros momentos maravilhosos, com personagens como Donna Anna, Don Ottavio ou Zerlina. Mas estou convencido de que, depois de escutar estas propostas, não vais poder evitar buscar e ver a opera inteira.

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Papageno ou o Iluminismo na cena lírica

O Papageno é um dos personagens de Die Zauberflöte [A flauta mágica] de W. A. Mozart. Aparentemente trata-se de um simples caçador de pássaros que não tem mais preocupação que comer, beber… e juntar-se com uma Papagena, cousa que logrará quase afinal da peça, quando está a ponto de se suicidar desesperado por não encontrá-la. Uma prova da simpatia que tenho por este personagem está em que Papageno e Papagena são os nomes dos meus cães, além de estar escrito para um barítono.

Mas, ao igual que no conjunto desta ópera -em realidade é um singspiel, gênero que alterna partes faladas e cantadas detrás do Papageno está o pensamento iluminista. Uma mostra, quase ao começo da peça, quando o Tamino lhe pergunta “Quem és?”, o caçador responde-lhe orgulhoso “Que pergunta mais parva! Sou um homem, como tu” sem preocupar-se de que o seu interlocutor fosse um príncipe. O questionamento da sociedade estamental já aparecera nas óperas que o génio de Salzburgo figera junto com o libretista Lorenzo da Ponte, nomeadamente em Le nozze di Figaro.  Não esqueçamos a condição de francomasão de Mozart e de Emanuel Schikaneder, autor do libreto, empresário teatral e primeiro intérprete do passareiro.

O personagem apresenta-se com esta singela canção estrófica “Der Vogelfänger bin ich ja” [Eu sou o caçador de pássaros] -sempre caraterizado com uma flauta de pã- em que expressa as prioridades da sua vida. Proponho esta versão interpretada por um dos grandes, o barítono alemão Hermann Prey, de quem algum dia teremos de falar mais a fundo.

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