E venha vinho!

O brinde é talvez uma das mais grandes mostras de alegria em grupo e o drama musical, enquanto terreno ótimo para a expressão de emoções, não podia estar isento delas.

O mais famoso de todos é com certeza o “Libiamo” do primeiro ato de La Traviata, ópera de que falámos anteriormente centrando-nos na sua personagem principal, Violetta Valery. Esta cena situa-se praticamente no começo da obra e nela conhecem-se os futuros amantes Violetta e Alfredo. Nesta versão, a cortesã está interpretada pola soprano eslovaca Lucia Popp (1939-1993) e o seu namorado polo tenor espanhol Plácido Domingo (1941). Popp brilhou com as suas interpretações da Rainha da Noite ou de Pamina de Die Zauberflöte e culminaria a sua carreira centrando-se em títulos de Wagner ou de Strauss.

A carreira -ainda ativa- de Domingo é difícil de resumir em poucas linhas. Trata-se de uma das grandes personalidades da história da interpretação operística. Trabalhou mais de cento vinte roles diferentes, sempre caracterizando-se por uma intensa entrega aos personagens interpretados e ao público. Isto provocou que conseguisse reconhecimentos incríveis como o da Ópera de Viena, em 1991, quando recebeu oitenta minutos de aplausos à conclusão do Otello verdiano.

Uma das óperas que se está a recuperar no Romantismo francês é o Hamlet de Ambroise Thomas. É curioso que algumas das melhores óperas francesas do XIX estejam baseadas em destacadas obras de outras literaturas, como o Faust e o Werther de Goethe, além deste Hamlet shakespeariano. Este brinde, “Le vin dissipe la tristesse”, não corresponde com um casal namorado, senão com um moço desiludido para quem só o vinho pode fazer que esqueça a brevidade da vida e as pesadas cargas que deve suportar. Interpreta o barítono americano Robert Merrill (1917-2004), possuidor de uma voz prodigiosa, que começou a sua carreira cantando em diversas cerimónias judias e seria o mítico diretor italiano, Arturo Toscanini, quem lhe daria as suas primeiras oportunidades em óperas como La Traviata ou Un ballo in maschera.

Para finalizar, deixamos aqui o brinde da ópera Marina, de Emilio Arrieta (1823-1884), uma das poucas em língua castelhana. O tenor canário Alfredo Kraus (1927-1999) mostra neste vídeo essa característica que não perdeu en nenhum momento da sua brilhante carreira: a elegancia.

Estes tres brindes têm um elemento em comum: a presença do coro. Lógico, quem quer brindar sem amizades diante?

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Violetta Valery

A ópera nasce a princípios do século XVII fruto do interesse duns intelectuais italianos ligados a um grupo chamado Camerata Bardi. Sabiam que os dramas da Grécia clássica se representavam cantados, e trabalhárom por encontrar uma fórmula que lhes permitisse recuperar o género. O mito de Orfeu foi o predileto para levar à cena musical, como figêrom Jacopo Peri, Giulio Caccini e, sobretudo, Claudio Monteverdi. Durante quase dous séculos a ópera vai-se surtir fundamentalmente de temas mitológicos até a chegada do Romantismo quando se incorporam também histórias procedentes de diversos períodos do passado.

Giuseppe Verdi era uma pessoa comprometida com o ser humano do seu tempo, além duma figura de grande carga simbólica no processo de unificação da Itália. Isto provocou-lhe não poucos problemas com a censura. Em Un ballo in maschera tivo de substituir a figura dum rei por um governador pois considerava-se inaceitável levar um regicídio ao palco. Em Rigoletto o vicioso rei de Victor Hugo passou a ser um duque, assunto do qual já falámos anteriormente.

O libreto de Francesco Maria Piave recolhe o fundamental de A dama das camélias de Alexandre Dumas, isto é, uma história contemporânea duma prostituta de alta sociedade que morre sozinha e abandonada por causa da hipocrisia da época. E esta alta sociedade foi a que assistiu à primeira representação de La Traviata no teatro La Fenice de Veneza em 6 de março de 1853. A estreia foi um autêntico insucesso, talvez por uma conjunção de maus intérpretes e dum tema que retratava algumas das misérias da sociedade do momento.

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