Um madrigal: Il bianco e dolce cigno

Uma das formas musicais polas que tenho uma especial predileção é o madrigal. Talvez isto se deva a que represente o primeiro intento de encontrar uma íntima conexão entre a música e a poesia, rompendo com o modelo estrófico dominante até esse momento.

Jakob Arcadelt (1515-1568) era um desses compositores francoflamengos aos que devemos o desenvolvimento da polifonia, e é o autor deste “Il bianco e dolce cigno” [O branco e doce cisne]. Embora se especulem nomes como Giovanni Guidiccioni ou Alfonso d’Avalos, nada sabemos com seguridade sobre a pessoa que escreveu o texto.

O poema fala-nos dum homem que vê que a sua morte está próxima e que, apesar de afrontar este feito inicialmente com pena, passa a fazê-lo finalmente com serenidade e mesmo com satisfação. O Arcadelt joga maravillosamente com as tensões entre uma textura homofónica -igualmente moribunda- que lhe estava a ceder o seu domínio à polifonia. Não sei se o compositor pensaria neste paralelismo naquela altura, mas o certo é que a substituição duma textura pola outra deu-nos uma das etapas mais brilhantes da história da música puramente vocal.

Com este mesmo texto escreveu também um espléndido madrigal Orazio Vecchi, penso que com óbvias reminiscências do anterior, mas o do amigo Arcadelt chegou antes a mim e com ele fico.

 

0