Hildegard von Bingen em Ramirás

Gozei imenso com O espello do mundo, o magnífico romance de Ramón Nicolás. Além das múltiplas virtudes do livro, devo confessar que a sua leitura foi especial para mim por dous motivos especiais: o passeio polo Ramirás medieval e a presença da figura de Hildegard von Bingen.

Ramón Nicolás é um filho do lugar de Escudeiros, criado em Vigo, como o sou eu de Vilherinho (Paiçás), mas criado em Ourense. Lembro que Escudeiros era um dos lugares por onde passávamos a caminho de São Gregório para comprarmos café, açúcar ou as tópicas toalhas. A-propósito, quando estava em São Gregório ou em Melgaço, não percebia a existência de fronteira linguística alguma, esse seria um conceito que aprenderia mais tarde de certos livros.

O romance está centrado numa fictícia superiora do Mosteiro de São Pedro, contemporânea de Hildegard von Bingen, a ona Guiomar, que mantém uma relação epistolar com a beneditina alemã. Apesar de tê-lo visitado antes várias vezes, não descobrim a importância deste mosteiro -e também do priorato de São Salvador de Paiçás- até o Bacharelato, quando tivera de fazer um trabalho de investigação do nosso património que nos encomendara o professor Xabier Límia. É pois nesta época dourada do Reino da Galiza -de que já falámos a respeito do Códice Calixtino- onde se localiza o romance.

Hildegard von Bingen (1098-1179) é uma multifacetada personagem que, enquanto compositora, escreveu fundamentalmente música monódica (que tem uma só voz) para interpretarem as monjas das sua comunidade. As suas melodias costumavam ser mais longas e ornamentadas do que a música dos seus contemporâneos. A sua produção musical reúne-se em dous volumes: o drama Ordo virtutum e uma coleção de cantos litúrgicos ou semi-litúrgicos chamada Symphonia armonie celestium revelationumOrdo virtutum é o único drama sacro medieval de cuja música e texto conhecemos a autoria. Dezoito cantoras representam as Virtudes e a sua Rainha, a Humildade, que devem lutar contra o Demo, personagem escrito para uma voz masculina que não canta, pois o mal só podia ser representado por berros desagradáveis ou por sons animais. Neste auto aparece também um coro masculino (os Profetas e os Patriarcas) e outro feminino (as Almas).

Deixo aqui um vídeo da peça completa e esta ligação para o texto originário latino e uma tradução ao inglês.

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