Kathleen Ferrier

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A respeito da morte do crítico musical José Luis Pérez de Arteaga, um confesso mahleriano, falou-se muito da importância da contralto inglesa Kathleen Ferrier (1912-1953) no início sua devoção polo compositor austríaco. Já introduzimos uma gravação sua neste blogue quando explicamos o que é uma canção de concerto, mas hoje imos-lhe dedicar a postagem completa.

Ferrier é um dos poucos exemplos de contralto pura, pois é um tipo vocal mui escasso nas vozes de mulher. De facto, é habitual que se utilizem mezzo-sopranos para estes roles devido a esta escasseza. O procedimento de utilizar tipos vizinhos já o comentámos na entrada anterior ao falarmos do tenor spinto, embora o número de contralto seja ainda mais reduzido.

Apesar de ser no terreno da canção de concerto onde, se quadra, Ferrier deixasse uma pegada mais profunda, não podemos esquecer anedotas como uma função do Orfeu e Eurídice (1762) de Christoph W. Gluck, em que continuou a cantar após quebrar uma perna. Propomos precisamente a famosa ária de Orfeu “Che farò senza Euridice” (junto com o recitativo prévio), onde o filho da musa Calíope se lamenta da sua namorada Eurídice. Trata-se provavelmente do último grande personagem escrito para um castrado, aliás, pertence a um título fundamental na história da ópera, pois é onde Gluck enuncia os princípios da sua reforma, com que pretende acabar com os abusos a as arbitrariedades às que se chegara nos últimos anos do Barroco em favor duma maior clareza na música e na trama, acorde com os princípios do Iluminismo.

A melhor maneira de que luza uma voz larga e escura como a de Ferrier e, precisamente, aplicar os princípios de singeleza e de elegância do Classicismo. Isto consegue-se permitindo que flua o som com naturalidade deixando que o fraseio da música e os acentos do texto façam o resto e fugindo de qualquer tipo de artifício. Isto, que parece mui simples é, em realidade, o mais difícil. Por isso adoramos cantoras como Kathleen Ferrier.

 

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