Não costumo ver o Concerto de Ano Novo vienense

Após o interesse provocado por um par de comentários meus nas redes sociais, decidim escrever este artigo sobre o popular Concerto de Ano Novo vienense.

O facto de milhões de pessoas começarem o ano com a Filharmónica de Viena é incrível. Que a primeira celebridade que vejam no televisor seja Harnoncourt, Kleiber (que a terra lhes seja leve), Muti, Dudamel ou Jansons é maravilhoso, e o repertório que se costuma interpretar, isto é, valsas e polcas dos Strauss, resulta apropriado para uma sessão musical ligeira.

Ora bem, identificar música culta com público abastado que acede a assentos exclusivos vestindo roupas e complementos caríssimos é um retrocesso de mais de dous séculos na democratização do acesso às salas de concertos. O seu encenamento está mais próximo aos encontros de aristócratas arredor dos seus músicos do que às salas de concertos onde podia entrar qualquer pessoa que comprasse um bilhete. É certo que estes bilhetes não estavam ao alcance da maioria da população século e meio atrás, mas na atualidade é mais barato ver um concerto ao vivo de uma orquestra sinfónica, ou mesmo uma representação de ópera, do que um jogo de futebol (que paradoxalmente está considerado um fenómeno popular).

Quanto ao repertório que se costuma interpretar neste concerto -que nos últimos anos foi aumentando- convém lembrar que a música dos Strauss tem esta popularidade -na minha opinião-fundamentalmente por pertencer ao universo cultural germânico, onde se insere também a música austríaca. As valsas e as polkas são danças de origem popular que estes compositores levaram acertadamente às grandes salas, mas duvido que forem tão interpretadas se provierem de outros territórios, com isto não digo que as danças populares não podam gerar obras de primeiríssimo nivel, mas acho que não é este o caso.

No entanto, autores periféricos contemporâneos seus como Dvořák, Smetana, Mussorgsky ou Grieg seriam muito mais populares que eles de terem pertencido ao citado universo. Conhecermos O Danúbio Azul mais do que O Moldava ou O barão cigano mais do que Rusalka é injusto e empobrece a cultura europeia. Ainda hoje estamos a sofrer as consequências de um cânon musical formado com centro de gravidade na Alemanha e na Áustria.

Lembrava-nos também a Carmen Ruiz no Facebook a inaceitável ausência de mulheres na direção deste evento. E não só se produz na direção, pois até 1997 nem se permitia a sua presença como membros da orquestra, de aí que mesmo hoje exista um insultante predominio de homens, facto bastante inusual se olhamos para outras formações de dimensões similares, onde uma presença mesmo maioritária de mulheres está-se a produzir com total normalidade (não foi sem tempo).

Contudo, Thielemann é um reconhecido maestro que dirigiu hoje uma das melhores orquestras europeias, e seria injusto não concluir esta postagem sem uma amostra do que se interpretou no Musikverein.