Montserrat Caballé ou como ao procurar ser a mais grande se renuncia à grandeza

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Numa masterclass com o baixo Roberto Scandiuzzi, ao procurar modelos vogais afirmou rotundamente: “se querem saber como emitir, é muito fácil, ouvem a Caballé e não precisam de mais”. Aquele comentário surpreendeu-me pois, embora a soprano catalana estava considerada uma das grandes do século XX, a gente da minha geração apenas a conhecia por essa canção que fizera dedicada a Barcelona em 1992, por colaborações com grupos pop e mesmo por cantar alguma peça lírica na TV com um estilo que não correspondia com o de uma grande figura.

Tudo isso fazia que não tivesse muito interesse em descobrir o que pudera ter feito a Caballé, pois os meus referentes no seu registo eram Callas, Tebaldi, Freni, Scotto, Nilsson ou mesmo Gulín. Este comentário do Scandiuzzi despertou em mim um novo interesse pola sua figura e comecei a procurar gravações dos seus primeiros anos. Então descobrim essa maravilhosa e única soprano que emitia o som com uma suavidade e limpeza que em ninguém percebera antes, com esses pianissimi em que se suspendia eternamente transmitindo a sensação de que estava a fazer a cousa mais natural e simples do mundo. Conhecim essas Cio Cio-San, Norma, Elvira, Manon, Amelia… que vieram protestar por não lhes ter aberto a porta antes.

A sombra da Callas é imensa, e provocou em não poucos casos uma obsessão por a substituir não só artística senão socialmente. Alguma cousa assim deveu ter acontecido com a Caballé, pois houve um momento em que se deveu sentir mais importante que a música e que as personagens que interpretara como ninguém fizera e, querendo ser a mais grande, renunciou à grandeza embarcando em projetos de escasso interesse musical e revisões das suas personagens com duvidoso critério. Apareceu a diva que fazia afinar a orquestra polo seu la ou que fingia desmaios quando tinha problemas num agudo, por além de outras excentricidades.

Curiosamente, com o passar dos anos, vamos ficar fiéis à sua memoria os que admiramos o que aquela moça fazia durante duas maravilhosas décadas. Paradoxalmente o público cujo carinho procuraria intensamente nas décadas posteriores vai-a ir esquecendo progressivamente.

Nós nunca não vamos esquecer esta casta diva.