Jon Vickers

Nesta fim de semana soubemos da morte do tenor canadense Jon Vickers. Apesar de levar já muito tempo retirado e de ter passado os seus últimos anos padecendo a doença do Alzheimer trata-se duma notícia sempre triste.

A sua voz poderia-se catalogar como de tenor dramático, ou Heldentenor dentro da tradição alemã. Como já comentáramos a respeito de Ángeles Gulín, este tipo de vocalidades não abundam, e são frequentes os casos de cantantes que interpretam este tipo de papeis graças às suas formidáveis faculdades mas que não o podem fazer ao longo de muitos anos devido à sua grandíssima esigência vocal e também, talvez, a uma técnica não devidamente assentada.

Neste monólogo-arioso “Dio! Mi potevi scagliar” do terceiro ato do Otello de Verdi poderemos ver como este não era o caso de Vickers. A voz sai suave e redonda, cousa enormemente difícil em vozes dramáticas, pois devem responder quase sempre a uma extrema exigência de intensidade para que sejam simplesmente audíveis. Já no recitado inicial vemos duas das mais importantes virtudes de Vickers, que são uma enorme capacidade declamatória e uma dição impecável. Domina o forte (escutemos as frases finais desta peça) o piano (“e rassegnato al volere del Ciel”) e a mezza voce, como se pode ver na seção do começo.

Falámos antes da pouca duração das carreiras de moitas vozes dramáticas. Uma das causas está no jeito de afrontar a passagem de registo, isto é, o ataque e a projeção das notas mais agudas. Quando se resolve apenas com força e faculdades é provável que essa voz não seja capaz e emitir um agudo num breve período de tempo. Mas Vickers era capaz de resolvê-lo dum jeito tecnicamente impecável, tanto com plenitude -no “Oh, gioia!” final- como com um falsetto coberto em “l’anima aqueto”.

Além de todas estas questões técnicas, ele foi um cantante capaz de enriquecer as dimensões dos personagens, não só de aqueles que se consideram canónicos dentro do repertório operísticos senão também dos de nova criação. Por exemplo, Benjamin Britten escrevera o rol principal de Peter Grimes (1945) pensando numa voz mais ligeira como era a do seu companheiro Peter Pears, mas Vickers trouxe-nos um Grimes autenticamente brutal graças à sua tremenda capacidade dramática.

Obrigado por tudo, Jon Vickers. Que a terra che seja leve.