Joias da música galega: o Códice Calixtino

Escreveram-se muitas histórias nos últimos tempos a respeito do Códice Calixtino, mas hoje vou-me só referir a uma cousa que não conhece demasiada gente e que deveria ser orgulho do patrimônio galego. Como já sabemos, o Códice é uma guia de peregrinos, que data de meados do século XII, resultado duma encomenda do arcebispo Diego Gelmires em agradecimento ao papa Calisto II por outorgar a Compostela a categoria de sé metropolitana. O que nos interessa do ponto de vista musical é que nesta guia aparece a primeira peça escrita a três vozes da história.

A escritura musical monódica (a uma voz) dominou durante boa parte da Idade Média. O primeiro intento de introduzir uma segunda chamou-se organum, polo parecido com o som dum órgão. Entre as vinte e duas peças recolhidas em vários apêndices deste livro temos boas mostras de organa, mas o exemplo que queremos salientar é o conductus “Congaudeant Catholici” [Que se alegrem os católicos], a obra a três vozes mais antiga que se conserva. O termo conductus fai referência a uma forma que se canta na altura de transportar (conduzir) o lecionário do lugar em que se guarda até o ponto onde se lê, daí o seu nome.

A autoria destas peças não está clara, durante muitos anos ligaram-se a músicos da abadia de Saint-Martial de Limoges, mas as investigações mais recentes consideram que estilisticamente se aproximam mais à escola de Notre-Dame de Paris. “Congaudeant Catholici” está assinada por Magister Albertus Parisiensis, quem poderia corresponder com Albert Etampes, cônego do templo parisino na segunda metade do século XII. Há também quem defende que o Códice pode ser obra dos monges beneditinos de Vézelay -um dos lugares de onde saia o Caminho de Santiago- devido ao uso dum sistema de notação habitual em manuscritos da Borgonha. Em todo o caso, parece óbvio que Gelmires preferiu encarregar o produto fora em vez de fomentar a criação duma potente escola musical local. Cousas de ricos.

Transcrever as peças do Calixtino à notação moderna não foi um trabalho sem controvérsia, pois na altura não se costumava indicar os valores rítmicos dado que a escritura musical estava concebida fundamentalmente para o gregoriano, repertório monódico cuja interpretação se guiava apenas pola acentuação do texto. Mas, para o encaixe de várias vozes, é preciso ter mais referências e foram muit@s @s especialistas que trabalharam neste eido, como o jesuíta galego José Lôpez Calo (Porto do Som, 1922).

Não direi mais nada. Situa-te nos tempos do esplendor de Compostela e goza desta joia.