Guillem Carbonell: “Estamos na época da tirania dos encenadores e das suas equipas”

Guillem Carbonell Riera (Barcelona, 1967) licenciou-se em Arqueologia e em História da Arte pola Universidade de Barcelona, mas a sua paixão polo drama musical converteu-no num dos diretores de cena operísticos mais prestigiosos do mundo. Trabalha no Teatro Real de Madrid desde 1997, onde participou em mais de cem títulos de ópera e de ballet com as maioria dos principais encenador@s, diretor@s musicais e cantor@s do nosso tempo. Nesta entrevista ajuda-nos a entender melhor como é a montagem duma ópera, quais são as suas funções e dá-nos a sua visão da situação do género na atualidade.

 

Qual é a função geral dum diretor de cena?

É um ofício do teatro. É a pessoa responsável da organização dos movimentos e dos efeitos cénicos dispostos polo encenador, e intermédia entre este o resto da equipa ténica. É o stage manager dos países de língua inglesa, o régisseur francês -de onde toma o castelhano o termo “regidor”-, o Inspizient alemão ou o direttore di scena italiano, e é considerado como a máxima autoridade no palco e o responsável direto do espetáculo logo que começar a função ou o ensaio.

No mundo do espetáculo ao vivo, os diretores de cena são as pessoas que têm por missão montar as obras conforme com o acordado pola direção teatral e levar a ordem do espetáculo durante o decurso do mesmo, prevendo e avisando os atores e os técnicos das suas respetivas intervenções cénicas e seguindo as diretrizes especificadas na correspondente partitura, que funciona como roteiro. O regedor intervém nas três fases duma produção, isto é: pré-produção, ensaios e representação.

 

Como se organizam a pré-produção e os ensaios?

Na fase de pré-produção, a tarefa do diretor de cena é o estudo do projeto e a confeção do roteiro, assistência aos castings e a preparação de listagens de necessidades cenográficas, de vestuário e adereços.

Os primeiros ensaios costumam começar numa sala de ensaios. Os cometidos do diretor de cena nesta fase são assistir o encenador e intérpretes com os seus adereços, marcar tempos de ensaios, anotar entradas e saídas de intérpretes, atualizar a informação, coordenar e informar a produção e a direção técnica do desenvolvimento dos ensaios e coordenar e informar produção e direção técnica do desenvolvimentos destes e coordená-los com provas de vestiário, realizar a citação diária junto com o diretor de cena e comunicá-la, entre outras tarefas.

Depois os ensaios realizam-se no palco, onde deve ocupar o seu posto o diretor de cena e, mediante o sistema de intercomunicação, dá as ordens das mudanças de decorado, luzes, efeitos de som que se fossem fixando na primeira fase de ensaios.

 

Qual é a função do diretor de cena durante as representações?

Deve fazer a comprovação de que todos os elementos técnicos e humanos estão preparados para começarem a representação e depois dar os avisos de início de função. Logo, mediante o sistema de intercomunicação, vai dando as prevenções e as execuções pertinentes a cada secção para que o espetáculo decorra segundo o estabelecido durante os ensaios pola direção cénica. Em caso de imprevisto, deve tomar ele as decisões pertinentes, mas todo o trabalho realiza-se conjuntamente com o técnicos.

 

Que che levou a dedicar-te a isto?

A verdade é que foi uma conjunção de fatores que propiciárom a decisão. Estava-me a preparar para ser mestre de História, a verdade e, enquanto estudava, comecei a trabalhar como ator ou figurante no teatro do Liceu da minha cidade natal (Barcelona). A doença da ópera veio-me com tal paixão que resolvim dedicar-me a isto profissionalmente. Comecei a estudar solfejo e a ampliar os meu conhecimentos em idiomas (inglês, italiano e francês), tudo isto compaginado com os estudos universitários e com o trabalho. Com o passar do tempo, tivem a sorte de conhecer um encenador, Horacio Rodríguez-Aragón, quem me ofereceu ser o seu ajudante. A peça, forjada ao longo de dez anos, com a acumulação de conhecimentos pertinentes, encaixou à perfeição. Deste modo, percorrim a maioria de temporadas estáveis espanholas, com alguma incursão ao estrangeiro, trabalhando como ajudante e como diretor de cena, e já me dediquei a esta profissão de modo estável. A minha paixão pola ópera foi o detonante, sem dúvida.

 

Que qualidades deve ter um bom diretor de cena?

Antes de mais, ser mui organizado, observador, rápido e metódico para registar as anotações. Sangue frio e nervos de aço para as situações difíceis, psicologia e temperança para tratar com os Egos fortes que nos rodeiam, e muita paciência.

 

Evoluírom muito as montagens nos últimos anos? Em que sentido?

A verdade é que nestes últimos trinta anos, influenciados pola evolução técnica de outras artes cénicas as montagens ou produções de ópera fôrom evoluíndo muito, e complicárom-se com demasia para nós, os diretores de cena. Para o público em geral são mais atrativos, vistosos e completos, mas para nós constituem uma tarefa complexa e às vezes um autêntico pesadelo. Além de coordenar os componentes humanos de sempre -solistas, coro, orquestra, ballet, escolania, atores- temos de conviver com que as cenografias são enormes, complicadas e às vezes perigosas (estruturas giratórias, decorados suspendidos a metros de alturas, gente pendurada em arneses e em balouços com sistemas de seguridade), a tudo isto acrecentárom-se efeitos de vídeo e gravações digitais sincronizadas, efeitos de áudio, fumes vários, litros de água e de outros líquidos, animais vivos diversos, múltiplos materiais como pintura, tinta, foto e efeitos pirotécnicos, barro… que fam tudo mais difícil. Mas, como é em benefício do espetáculo, pois o resultado costuma ser impressionante e compensa os esforços.

 

Por via de regra, têm-se em conta as necessidades dum cantor quando se desenha uma produção?

Nunca. Nos anos que levo na profissão não o vim jamais. Estamos agora na época da tirania dos encenadores e das suas equipas (cenógrafos, dramaturgos, iluminadores e modelistas) que impõem as suas ideias por riba de cantores e de intérpretes. Passamos ao extremo contrário de décadas atrás, quando só importavam as vozes. Agora o mais importante é o critério do encenador e do diretor musical, por cima de tudo. É uma pena, porque às vezes desvirtua-se ou distorsiona-se a mensagem da obra e os cantores que começam não têm o privilégio -como os consagrados- de rejeitarem trabalho por discordâncias e veem-se obrigados, às vezes, a situações incómodas no palco.

 

Leo Nucci considera que os gastos duma montagem são excessivos e que têm a culpa de que produzir uma ópera não seja mais barato. Qual é a tua opinião a este respeito?

É um tema controvertido e difícil. É evidente que a ópera é um espetáculo custoso e pouco rendível, antes de mais pola quantidade de profissionais que intervêm numa função e pola sua remuneração económica. A todo isto acrescentam-se os custos da fabricação da cenografia e o vestuário, que muitas vezes são desorbitados. Os encenadores, orquestras e solistas solicitam uns cachés mui elevados que os diretores artísticos dos teatros consentem. Na minha opinião, a solução consiste em reduzir todos esses custos co-produzindo entre vários teatros e compartilhando gastos, por um lado, e rebaixando os cachés de toda a equipa artística -solistas incluídos- e programando poucos títulos e mais funções polo outro. Quanto ao decorado e ao vestuário, acho que a qualidade não é sinónimo de gasto excessivo e preços caros, se tudo isto se estipular, acabariam muitos abusos em benefício do público e do espetáculo.

 

Há algum título em que ainda não trabalhasses e que che apeteça especialmente fazê-lo?

Pois há, na verdade. Gosto muito de Berlioz e amo a sua ópera Os troianos, que nunca figem e que adoraria. Constitui um repto para qualquer teatro pola sua duração e dificuldade. Veremos se o destino é favorável e o logro.

 

Além de magnífico diretor de cena, és, de longe, a pessoa que conheço que mais sabe de Wagner. O que há de especial na sua obra?

O meu amor e paixão pola obra operística de Wagner constituem, de entrada, uma questão subjetiva e mui pessoal, já que obtenho muito prazer e satisfação escutando-a. Mas tratando de ser objetivo e breve, direi que as suas obras parecem-me O Espetáculo de Arte Total ao vivo, o mais grande jamais criado. A obra cénica de Wagner está concebida e estruturada dum modo tão extraordinário e complexo que constitui um prodígio mui avançado ao seu tempo. A riqueza e a diversidade das possibilidades que oferece como intérprete e como público na sua análise e goce são ilimitadas, insondáveis. Os tipos vocais por ele criados -impensáveis na altura- a orquestração esmagadora, as melodias concebidas, as personagens e os seus conflitos, a ambição programática na sua criação, a sua particular revisão dos argumentos, a complexidade do seu entramado narrativo-musical, a originalidade do conceito, a intensidade no desenvolvimento… constituem aspetos tangíveis, mas prodigiosos e, nas suas óperas, ali estão para o nosso goce.

 

Que deveria fazer a ópera para assegurar o futuro?

O que já está a fazer: adaptar-se à época atual e evoluir para se manter viva e não se tornar numa peça de museu estéril e inanimada. A Ópera é Teatro, teatro musical, que formula situações humanas, cuja reflexão poder fazer-nos melhores e mais felizes. A Ópera tem a obriga de ganhar o público jovem com um achegamento dos argumentos (aproximando-os aos seus problemas, indo à essência da problemática humana, eliminando o superficial e adaptando os aspetos meramente conjunturais aos códigos contemporâneos). A Ópera tem de abaratar os seus custos para fazê-la mais rendível. A Ópera tem de fazer-se mais próxima ao grande público. Deve explicar as suas caraterísticas específicas nos meios de comunicação, para que se entenda, pois trata-se duma criação artística que corresponde a um contexto histórico-estético diferente do nosso. Cumpre fomentá-la e divulgá-la de forma correta para o goce de todos, pois forma parte da nossa herança cultural.