Confesso ter sido um idiota

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Tempo atrás dediquei-me, entre outras cousas, a criticar as versões com piano de obras barrocas, como as Variações Goldberg por Glenn Gould. Mas, agora podo dizer com clareza: fum um idiota!

É certo que durante muitos anos houve escasso interesse por investigar a organologia ou a estética da música anterior ao Romantismo. Como reação a isto, surgiram na década de 60 do século passado -fundamentalmente nos Países Baixos- uma série de músicos que trabalharam por oferecer versões que pudessem estar o mais perto possível da sonoridade original das peças escritas no Barroco. Aí apareceram os trabalhos de Frans Brüggen (1934-2014), Nikolaus Harnoncourt (1929-2016), Gustav Leonhardt (1928-2012), Ton Koopman (n. 1944) ou John Eliot Gardiner (n. 1943). Graças e eles descobrimos a doçura do oboé sem chaves, a redondez do traverso barroco ou a calidez da tromba natural. Após ouvirmos isto, já nem queríamos saber nada de esse instrumento usurpador chamado piano para este repertório.

O que costuma acontecer é que, à sombra destes maravilhosos maestros, foram aparecendo como cogumelos outr@s intérpretes que só tinham interesse nos aspetos mais superficiais do historicismo e a música acabou passando a um segundo plano nas suas performances. Junto com isto, com o passar dos anos, fomos vendo também que, por exemplo, Sokolov não precisava de um cravo para Couperin soar a Couperin, ou que Mutter podia fazer um brilhante Vivaldi com uma orquestra de instrumentos modernos:

Quando fundámos o Herbens Consort, em 2013, concordámos na ideia de utilizar instrumentos de época, mas sem nos circunscrever a nenhuma estética concreta, e assim fizemos:

E Gould? Esse tolo obsesso pola sua cadeirinha onde sentava e polos estudos de gravação em que parecia querer ocupar o lugar de Bach? Pois, confesso, é uma delícia.

Juventude seduzida polo integrismo historicista, a tua doença tem cura, pode levar tempo, mas cura. Se hoje consideras isto pouco rigoroso, é possível que dentro duns anos seja um regalo para os sentidos.

Nota final. Embora este blogue esteja dedicado fundamentalmente à música vocal, às vezes resulta terapêutico sair deste terreno e explorar outros. Contudo, dado que a voz de Gould  se pode perceber de fundo em muitas gravações, podemos considerar que não saímos excessivamente da ideia inicial 😉