Breve introdução aos castrati

O filme de Gérard Corbiau Farinelli (1994) sobre a figura do mítico cantor conseguira despertar no grande público o interesse polos castrati, aqueles nenos de famílias humildes que castravam antes da muda da voz como alternativa para saírem da miséria.

Apesar de serem os castrati os réis da cena lírica europeia do XVIII, com a excepção da França, cujo público nunca aceitou de grau, a sua origem está nas escolanias das catedrais. A Igreja católica seguia à risca aquela indicação de São Paulo de que “as mulheres calem na igreja” (Coríntios 14:34), mas precisava de vozes agudas e maduras para a interpretação das composições polifónicas, de aí que começasse com tão lamentável prática.

Foi numa época tão artificiosa como o Barroco, cheia de culto ao espectáculo puro e à extravagância, quando o público se entusiasmou por estas vozes agudas como as femininas mas com a sonoridade que lhes fornece um corpo masculino. Os Carlo Broschi “Farinelli” (1705-1782) e Giovanni Mancini “Caffarelli” (1710-1883) eram autênticas celebridades onde cantavam, e gozavam dum poder mui superior ao dos compositores, mesmo podiam impor cantar uma ária do seu gosto embora não tivesse relação com a ação da ópera que se estava a representar. Além disto, eram amantes mui valorados dada a sua incapacidade de engravidar uma mulher. Tampouco devemos esquecer outros cantores como Pier Tosi (1653-1732) ou Giambattista Mancini (1714-1800), que tornaram grandes teóricos do canto e que, graças aos seus tratados, podemos conhecer a técnica vocal da altura.

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Jon Vickers

Nesta fim de semana soubemos da morte do tenor canadense Jon Vickers. Apesar de levar já muito tempo retirado e de ter passado os seus últimos anos padecendo a doença do Alzheimer trata-se duma notícia sempre triste.

A sua voz poderia-se catalogar como de tenor dramático, ou Heldentenor dentro da tradição alemã. Como já comentáramos a respeito de Ángeles Gulín, este tipo de vocalidades não abundam, e são frequentes os casos de cantantes que interpretam este tipo de papeis graças às suas formidáveis faculdades mas que não o podem fazer ao longo de muitos anos devido à sua grandíssima esigência vocal e também, talvez, a uma técnica não devidamente assentada.

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Três anos sem Fischer-Dieskau

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Devia ter eu uns 15-16 anos e os meus pais acabavam de trazer à casa um toca-discos. Entre os primeiros vinis que tivem estava uma seleção da Paixão segundo São Mateu dirigida por Karl Richter. Uma das peças que continha e da fiquei instantaneamente cativado foi “Mache dich mein Herze rein” que cantava um barítono de quem não ouvira falar antes, um tal Dietrich Fischer-Dieskau. Automaticamente tornou o meu modelo vocal. Hoje seria mui simples procurar na internet quem era esse homem, mas daquela não era tão singelo. Tivem que perguntar-lhes aos meus amigos melômanos quem era esse cantante e pedir-lhes outras gravações se tiverem. Depois já viriam os seus lieder, particularmente os de Schubert e algumas gravações operísticas, mas foi graças ao mestre de Einsenach como cheguei a ele.

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Ángeles Gulín

O primeiro comentario dedicado a uma das grandes vozes da história recente tinha que ir para Ángeles Gulín. A Galiza tende a ser um pais pouco preocupado com os seus artistas que não aparecem na história oficial de nenhuma das duas ideologias dominantes, por isso a maior parte da sua gente desconhece que era galega uma das vozes mais singulares do século XX.

Ángeles Gulín (Ribadávia, 1939-Madrid, 2002) tinha uma voz era colossal, duma sonoridade imensa e homogeneamente redonda no agudo e no grave, o que se chama uma soprano dramática. Este tipo vocal é escaso em quantidade de vozes puras mas nao no repertório, especialmente na obra de Verdi, Wagner e dos compositores veristas mas temos exemplos anteriores como Norma de Bellini, Maria Stuarda de Donizetti ou mesmo a própria Rainha da Noite de Die Zauberflöte de Mozart, papel este com o que debutou a Gulín.

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