Mirella Freni (1935-2020)

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Esta é a primeira grande perda lírica de 2020. A maior parte dos cantores e das cantoras tentamos fazer música numa tensão constante com a nossa voz para podê-la levar ao rego. Freni não precisava disso, tinha um absoluto domínio dum instrumento que sometia aos seus desejos com uma dutilidade assombrosa.

Conta o meu maestro José Antonio Campo uma anedota nuns ensaios de Don Carlo na Ópera de Viena, dirigidos por Claudio Abbado, que representa mui bem esta faculdade. Após interpretar uma ária tão exigente como “Tu che le vanità” com uma naturalidade incrível, dirige-se ao diretor e diz: “Claudio, agora sobre uma perna”. E assim a cantou, sem perder nada de qualidade vocal nem de expressão.

Como homenagem, proponho esta “Si, mi chiamano Mimi”, de La Bohème, que cantava uma estrela de trinta anos. Que a terra che seja leve.

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Algumas claves de Fidelio

Este é o grande ano de Beethoven, pois cumprem-se 250 do seu nascimento. A contribuição deste génio à música vocal é imensa: a 9ª Sinfonia, os lieder, oratórios, a Missa Solemnis… Hoje propomos esta infografia sobre o seu singspiel Fidelio, de que já falámos um tempo atrás a respeito das inovações vocais do personagem Florestan.

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Jessye Norman (1945-2019)

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Um sinal do passar do tempo é que, até agora, costumava lamentar a morte de cantoras e de cantores que conhecim quando já estavam retiradas, ou pudem ouvir longe dos seus melhores anos. Assim fum vendo como nos deixabam Ángeles Gulín, Renata Tebaldi, Victoria de los Ángeles, Elisabeth Schwarzkopf, Joan Sutherland, Elena Obraztsova, Montserrat Caballé, Piero Cappuccilli, Cesare Siepi, Franco Corelli, Nicolai Ghiaurov, Luciano Pavarotti, Jon Vickers, Nicolai Gedda ou Dietrich Fischer-Dieskau entre outras.

Esta manhã recebemos a triste notícia do falecimento de alguém de quem gozei na sua época de plenitude, essa grande dama da cena lírica que foi Jessye Norman. Embora vaia ser lembrada seguramente polos seus Wagner e Strauss, hoje deixo aqui este maravilhoso lamento de Dido “When I am laid in earth” da ópera de Henry Purcell Dido and Aeneas. We will remember. Que a terra che seja leve.

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Montserrat Caballé ou como ao procurar ser a mais grande se renuncia à grandeza

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Numa masterclass com o baixo Roberto Scandiuzzi, ao procurar modelos vogais afirmou rotundamente: “se querem saber como emitir, é muito fácil, ouvem a Caballé e não precisam de mais”. Aquele comentário surpreendeu-me pois, embora a soprano catalana estava considerada uma das grandes do século XX, a gente da minha geração apenas a conhecia por essa canção que fizera dedicada a Barcelona em 1992, por colaborações com grupos pop e mesmo por cantar alguma peça lírica na TV com um estilo que não correspondia com o de uma grande figura.

Tudo isso fazia que não tivesse muito interesse em descobrir o que pudera ter feito a Caballé, pois os meus referentes no seu registo eram Callas, Tebaldi, Freni, Scotto, Nilsson ou mesmo Gulín. Este comentário do Scandiuzzi despertou em mim um novo interesse pola sua figura e comecei a procurar gravações dos seus primeiros anos. Então descobrim essa maravilhosa e única soprano que emitia o som com uma suavidade e limpeza que em ninguém percebera antes, com esses pianissimi em que se suspendia eternamente transmitindo a sensação de que estava a fazer a cousa mais natural e simples do mundo. Conhecim essas Cio Cio-San, Norma, Elvira, Manon, Amelia… que vieram protestar por não lhes ter aberto a porta antes.

A sombra da Callas é imensa, e provocou em não poucos casos uma obsessão por a substituir não só artística senão socialmente. Alguma cousa assim deveu ter acontecido com a Caballé, pois houve um momento em que se deveu sentir mais importante que a música e que as personagens que interpretara como ninguém fizera e, querendo ser a mais grande, renunciou à grandeza embarcando em projetos de escasso interesse musical e revisões das suas personagens com duvidoso critério. Apareceu a diva que fazia afinar a orquestra polo seu la ou que fingia desmaios quando tinha problemas num agudo, por além de outras excentricidades.

Curiosamente, com o passar dos anos, vamos ficar fiéis à sua memoria os que admiramos o que aquela moça fazia durante duas maravilhosas décadas. Paradoxalmente o público cujo carinho procuraria intensamente nas décadas posteriores vai-a ir esquecendo progressivamente.

Nós nunca não vamos esquecer esta casta diva.

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O fiato de Cappuccilli

Fiato é uma palavra italiana que significa “respiração”, e que se utiliza no canto lírico para referirmos a administração do ar por parte de quem canta. A sua duração depende, logicamente, da capacidade pulmonar e do uso que se fai do ar, mas também se devem considerar outras variáveis, como o registo em que se canta, pois as notas agudas costumam consumir mais ar do que as graves.

Piero Cappuccilli (1929-2005) era um cantor prodigioso em todos os sentidos, porém hoje imos falar apenas do seu fiato, embora poderíamos fazê-lo da sua expressividade, da sua qualidade vocal ou da sua pujança cénica. O domínio e a duração do seu fiato é espetacular, o facto de ter sido praticante do mergulho provavelmente o ajudou imenso, pois é um desporto que potencia a capacidade pulmonar.

Escolhemos esta “Il balen del suo sorriso” de Il trovatore de Verdi para comprovarmos o seu maravilhoso controlo do ar. Repara, por exemplo, quando canta “novo infonde a me coraggio” (0:43-0:58) ou “Ah, l’amore ond’ardo” (0:59-1:13).

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Florestan, um preso político nos alvores do Romantismo

Dentro da sua brilhante produção, Beethoven deixou-nos também uma ópera -que, em realidade, e um singspiel, igual que A flauta mágica de Mozart- intitulada Fidelio (1805). Fidelio é um nome masculino que utiliza a Leonore, para se poder infiltrar no serviço dum cárcere de Sevilha a fim de tentar conseguir a saída do seu amado Florestan, quem está preso por motivos políticos.

Esta obra tem maravilhosos momentos escritos para a própria Leonore, para o carcereiro Rocco e para a sua filha Marzelline ou mesmo para o insidioso Pizarro, sem esquecermos o emotivo coro dos presos “O welche Luft”. No entanto, hoje vou-me centrar no personagem de Florestan.

Beethoven foi um visionário em muitos aspetos, escreveu música para instrumentos de sopro que era intocável na altura confiando em que num futuro aperfeiçoamento na construção figer possível a sua interpretação, o qual aconteceria. Também a sua música para piano estava concebida para um instrumento mais potente do que se construía daquela e o tempo verificaria de novo as suas hipóteses. Apesar de ter escrito um só drama musical, deixou-nos um personagem que anteciparia a chegada do tenor heroico wagneriano, chamado Heldentenor em alemão.

Os papeis escritos para um Heldentenor só podem ser interpretados por auténticos prodígios da natureza, pois são vozes que precisam de agudos de tenor, dum centro quase de barítono e duma sonoridade capaz de ultrapassar uma grande orquestra a soar em plenitude. Junto com o Florestan, outros grandes personagens escritos para este registo são os wagnerianos Tristan ou Siegfried.

Propomos esta interpretação de James King da cena de Florestan “Gott! Welch’ Dunkel hier!” [Deus! Que escuridão há aqui!] com que começa o segundo ato de Fidelio. Divide-se em duas partes, um recitativo (primeira estrofe) e a ária, que conclui com uma emocionante lembrança da sua amada Leonore. Debaixo do vídeo podes encontrar uma tradução aproximada ao galego-português.

Gott, welch Dunkel hier! 
O grauenvolle Stille!
Öd ist es um mich her, nichts, 
nichts lebet außer mir,
o schwere Prüfung!
Doch gerecht ist Gottes Wille!
Ich murre nicht, das Maß
der Leiden steht bei dir!

In des Lebens Frühlingstagen
ist das Glück von mir geflohn.
Wahrheit wagt ich kühn zu sagen,
und die Ketten sind mein Lohn.
Willig duld' ich alle Schmerzen,
ende schmählich meine Bahn;
süßer, Trost in meinem Herzen,
meine Pflicht hab ich getan.

Und spür' ich nicht linde,
sanft säuselnde Luft,
und ist nicht mein Grab 
mir erhellet?
Ich seh, wie ein Engel
im rosigen Duft sich
tröstend zur Seite,
zur Seite mir stellet,
ein Engel, Leonoren,
der Gattin so gleich, der,
der führt mich zur Freiheit
ins himmlische Reich.
Deus! Que escuridão há aqui!
Que horrível silêncio!
Nada há ao meu redor,
nada vive exceto eu.
Que dura prova!
Mas esta é a vontade de Deus!
Não berro, a medida
do sofrimento está contigo!

Nos dias da primavera da vida
a felicidade fugiu de mim.
Ousei dizer a verdade,
e as cadeias fôrom a minha recompensa.
De bom grado tolero toda a dor,
mas o meu destino é a vergonha;
doce, conforto o meu coração,
pois cumprim com o meu dever.

Não consigo sentir um amável,
suave ar que sussurra,
não é o meu túmulo
o que me ilumina?
Vejo, como um anjo
numa neblina rosada
confortadora ao meu lado,
permanece ao meu lado,
um anjo, Leonore,
a minha própria esposa, que,
me guia à liberdade
do reino celestial.

 

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