Antigos e modernos

No post anterior falava de duas maneiras de abordar a música antiga, quer com instrumentos de época ou quer com instrumentos modernos. Estas duas conceições geraram durante décadas dous bandos incomunicados, os denominados antigosmodernos. Considera-se que o grande momento de convergência entre as duas partes foi a participação de um antigo, Nikolaus Harnoncourt, num evento de modernos, o Festival de Salzburgo onde dirigiu a Chamber Orchestra of Europe em 1992.

Esta simbiose gerou produtos maravilhosos, e mostrou que as duas tendências eram legítimas e necessárias. Trago aqui uma amostra mais recente deste diálogo, onde uma antiga, Emmanuelle Haïm e o seu Le Concert d’Astrée oferece uma deliciosa versão da célebre canção de Claudio Monteverdi “Si dolce è’l tormento” com um cantor lírico de “sala grande” como é o tenor Rolando Villazón. Esta gravação tem, na minha opinião outro valor adicionado. O habitual noutros tempos era vermos uma cantora solista dirigida e acompanhada por um grupo masculino, mas aqui acontece exatamente o contrário, o homem canta e as mulheres dirigem e acompanham.

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Confesso ter sido um idiota

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Tempo atrás dediquei-me, entre outras cousas, a criticar as versões com piano de obras barrocas, como as Variações Goldberg por Glenn Gould. Mas, agora podo dizer com clareza: fum um idiota!

É certo que durante muitos anos houve escasso interesse por investigar a organologia ou a estética da música anterior ao Romantismo. Como reação a isto, surgiram na década de 60 do século passado -fundamentalmente nos Países Baixos- uma série de músicos que trabalharam por oferecer versões que pudessem estar o mais perto possível da sonoridade original das peças escritas no Barroco. Aí apareceram os trabalhos de Frans Brüggen (1934-2014), Nikolaus Harnoncourt (1929-2016), Gustav Leonhardt (1928-2012), Ton Koopman (n. 1944) ou John Eliot Gardiner (n. 1943). Graças e eles descobrimos a doçura do oboé sem chaves, a redondez do traverso barroco ou a calidez da tromba natural. Após ouvirmos isto, já nem queríamos saber nada de esse instrumento usurpador chamado piano para este repertório.

O que costuma acontecer é que, à sombra destes maravilhosos maestros, foram aparecendo como cogumelos outr@s intérpretes que só tinham interesse nos aspetos mais superficiais do historicismo e a música acabou passando a um segundo plano nas suas performances. Junto com isto, com o passar dos anos, fomos vendo também que, por exemplo, Sokolov não precisava de um cravo para Couperin soar a Couperin, ou que Mutter podia fazer um brilhante Vivaldi com uma orquestra de instrumentos modernos:

Quando fundámos o Herbens Consort, em 2013, concordámos na ideia de utilizar instrumentos de época, mas sem nos circunscrever a nenhuma estética concreta, e assim fizemos:

E Gould? Esse tolo obsesso pola sua cadeirinha onde sentava e polos estudos de gravação em que parecia querer ocupar o lugar de Bach? Pois, confesso, é uma delícia.

Juventude seduzida polo integrismo historicista, a tua doença tem cura, pode levar tempo, mas cura. Se hoje consideras isto pouco rigoroso, é possível que dentro duns anos seja um regalo para os sentidos.

Nota final. Embora este blogue esteja dedicado fundamentalmente à música vocal, às vezes resulta terapêutico sair deste terreno e explorar outros. Contudo, dado que a voz de Gould  se pode perceber de fundo em muitas gravações, podemos considerar que não saímos excessivamente da ideia inicial 😉

 

 

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Não costumo ver o Concerto de Ano Novo vienense

Após o interesse provocado por um par de comentários meus nas redes sociais, decidim escrever este artigo sobre o popular Concerto de Ano Novo vienense.

O facto de milhões de pessoas começarem o ano com a Filharmónica de Viena é incrível. Que a primeira celebridade que vejam no televisor seja Harnoncourt, Kleiber (que a terra lhes seja leve), Muti, Dudamel ou Jansons é maravilhoso, e o repertório que se costuma interpretar, isto é, valsas e polcas dos Strauss, resulta apropriado para uma sessão musical ligeira.

Ora bem, identificar música culta com público abastado que acede a assentos exclusivos vestindo roupas e complementos caríssimos é um retrocesso de mais de dous séculos na democratização do acesso às salas de concertos. O seu encenamento está mais próximo aos encontros de aristócratas arredor dos seus músicos do que às salas de concertos onde podia entrar qualquer pessoa que comprasse um bilhete. É certo que estes bilhetes não estavam ao alcance da maioria da população século e meio atrás, mas na atualidade é mais barato ver um concerto ao vivo de uma orquestra sinfónica, ou mesmo uma representação de ópera, do que um jogo de futebol (que paradoxalmente está considerado um fenómeno popular).

Quanto ao repertório que se costuma interpretar neste concerto -que nos últimos anos foi aumentando- convém lembrar que a música dos Strauss tem esta popularidade -na minha opinião-fundamentalmente por pertencer ao universo cultural germânico, onde se insere também a música austríaca. As valsas e as polkas são danças de origem popular que estes compositores levaram acertadamente às grandes salas, mas duvido que forem tão interpretadas se provierem de outros territórios, com isto não digo que as danças populares não podam gerar obras de primeiríssimo nivel, mas acho que não é este o caso.

No entanto, autores periféricos contemporâneos seus como Dvořák, Smetana, Mussorgsky ou Grieg seriam muito mais populares que eles de terem pertencido ao citado universo. Conhecermos O Danúbio Azul mais do que O Moldava ou O barão cigano mais do que Rusalka é injusto e empobrece a cultura europeia. Ainda hoje estamos a sofrer as consequências de um cânon musical formado com centro de gravidade na Alemanha e na Áustria.

Lembrava-nos também a Carmen Ruiz no Facebook a inaceitável ausência de mulheres na direção deste evento. E não só se produz na direção, pois até 1997 nem se permitia a sua presença como membros da orquestra, de aí que mesmo hoje exista um insultante predominio de homens, facto bastante inusual se olhamos para outras formações de dimensões similares, onde uma presença mesmo maioritária de mulheres está-se a produzir com total normalidade (não foi sem tempo).

Contudo, Thielemann é um reconhecido maestro que dirigiu hoje uma das melhores orquestras europeias, e seria injusto não concluir esta postagem sem uma amostra do que se interpretou no Musikverein.

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Adeus, Montserrat. Olá, Amélia!

É difícil que um dia só tenha boas ou más notícias. Hoje é um desses que começam com uma muito má e outra muito, muito boa.

Como já sabedes, morreu a Montserrat, mais conhecida como Montserrat Caballé, uma das grandes cantoras de segunda metade do século XX. Uma soprano capaz de interpretar roles dramáticos com uma delicadeza extrema, e cujos famosos pianissimi sobre notas agudas já entraram na história da lírica anos atrás.

Para a sua lembrança proponho esta “Morrò ma prima in grazia”, que canta a Amelia de Un ballo in maschera de Giuseppe Verdi, uma jóia que fai que, apesar da morte da Montserrat, a lenda da Caballé vaia ficar connosco.

A maravilhosa notícia é que nasceu outra Amélia, a filha de uns bons amigos. Quando for um bocadinho mais velha, hei-lhe mostrar algumas gravações para ela ver que, o dia que nasceu, morreu uma senhora chamada Montserrat que nos deixou cousas incríveis para podermos viver com outra intensidade.

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José Baldomir e Rosalia de Castro: “Maio Longo”

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Este ano cumprem-se setenta da morte do compositor corunhês José Baldomir (1865-1947). É uma das figuras mais relevantes da canção lírica ou canção de concerto galega. O seu estilo enquadra-se dentro das correntes nacionalistas que surgírom na Europa do XIX como reação ao domínio germânico, e na Galiza temos outr@s músic@s salientáveis como Marcial del Adalid, Eugénia Osterberger ou Juan Montes (autor da célebre “Negra sombra”). A produção dest@s autor@s é relevante não só devido à sua qualidade senão também ao facto de que a canção galega se desenvolvesse de maneira simultânea à de outros territórios como a França, a Chéquia ou os países escandinavos, pois os autor@s mencionados são contemporâne@s dos Debussy, Ravel, Fauré, Dvořák ou Grieg.

“Maio longo” apresenta a caraterística estrutura de lied tripartito, com uma secção em fá maior, que corresponde com a primeira estrofe, uma segunda em lá maior mais uma volta à primeira. Como podemos comprovar seguindo o texto, Baldomir realiza uma repetição que não está presente no texto original, com o que multiplica o valor do texto da primeira estrofe.

          Maio longo… Maio longo,
          todo cuberto de rosas,
          para algús telas de morte,
          para outros telas de vodas.

          Maio longo, Maio longo,
          fuches curto para min,
          veu contigo a miña dicha,
          volveu contigo a fuxir.

Baldomir tinha uma clara predileção por Rosalia de Castro, de facto, para além deste “Maio longo”, musicou também “A un batido”, “Eu levo unha pena”, “Cava lixeiro”, “Mais ve…”, “No ceo, azul clarísimo”, “Por que?”, “Quérome ire”, “Tal com’as nubes” e “Ti onte mañán eu”. Nos próximos meses vai ser publicada polo Conselho da Cultura Galega uma reedição das canções de Baldomir feita por Margarita Viso, que confiamos sirva para divulgar esta produção.

Ofereço esta versão, que realizei recentemente com o pianista Cándido Cabaleiro no ciclo de concertos “Explurart”, no Auditório Martim Códax de Vigo. Transportamos a peça à tonalidade de mi bemol maior, que encaixa melhor com o centro vocal dum barítono. Esta prática do transporte é habitual no lied ou canção de concerto, pois tem a finalidade de que este repertório poda ser interpretado por qualquer tipo de voz.

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Alberto Zedda (1928-2017)

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Estava a ponto de publicar um comentário sobre a Rusalka de Dvořák quando me informárom da morte de Alberto Zedda. O facto de ter sido um grande especialista em Rossini, tanto como intérprete como autor das principais edições das partituras do cisne de Pesaro -cidade onde casualmente acaba de falecer- ocultou para o grande público o seu grande conhecimento de todo o repertório operístico.

Conhecim o maestro um par de anos atrás graças às masterclasses que organizou a Associação de Amigos da Ópera da Corunha. Detrás dessa aparência de hominho idoso e de sorriso zen ocultava-se um colosso cada vez que se punha diante duma orquestra ou que fazia indicações a um cantor/a. Os seus conselhos eram sempre precisos, rigorosos e brutalmente honestos. Precisamente devido a essa merecida fama de experto em Rossini que tinha, levava eu um repertório rossiniano que preparara às pressas, pois eram obras que não costumava trabalhar, quando vim que o seu conhecimento de Mozart, de Verdi ou de Puccini era tão grande como o que tinha do autor de Il barbiere di Siviglia, e decidim aproveitá-lo para revisar outros personagens com que estava mais familiarizado. Com ele aprendim cousas que já não se ensinam.

Além de tudo isso, foi uma pessoa mui ligada pessoal e profissionalmente à Galiza, especialmente à Corunha. Deixo aqui vídeo gravado nesta cidade onde resume a sua visão da voz lírica.

Que a terra lhe seja leve, maestro.

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Compositoras não reconhecidas: Fanny Mendelssohn

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Fanny Mendelssohn (1805-1847) recebeu uma educação musical similar à do seu irmão, Felix. Infelizmente, a sociedade da época não permitiu que pudesse desenvolver uma carreira pública de compositora e obrigaram-a a conformar-se com ser a esposa do pintor Wilhelm Hensel. Apesar disto, conservam-se mais de quatrocentas peças suas, fundamentalmente música para piano, lieder e um oratório.

O seu irmão Felix foi recebido em 1842 pola rainha Vitória da Inglaterra, admiradora a obra do compositor a quem quis homenagear. Pediu-lhe que interpretasse o seu lied favorito, titulado “Italien”. No entanto, o músico confessou-lhe que, em realidade, essa peça fora composta pola sua irmã, pois a família não permitia que a Fanny publicasse as suas composições com o seu próprio nome senão com a inicial F. Mendelssohn, que coincidia com a do seu irmão.

Deixo aqui uma gravação deste formoso “Italien” como homenagem a todas as compositoras não reconhecidas da história. O passado não se pode alterar, mas o seu conhecimento deve ajudar-nos a trabalhar por um presente mais justo e igualitário.

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O legado de Nikolaus Harnoncourt

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Não lembro exatamente qual foi a primeira gravação que conhecim de Nikolaus Harnoncourt, duvido entre un Apollo e Dafne de Händel e um Magnificat de Bach, mas não é um dado particularmente relevante. Ontem morreu um mestre não só da música antiga senão também de outros estilos mais distantes no tempo, do mesmo jeito que um bom tenista chega sempre às finais de qualquer competição independentemente de que tenha mais ou menos costume de jogar num tipo de superfície concreta.

Pertenço a um grupo de música antiga que se chama Herbens Consort, em que utilizamos instrumentos de época apesar de que não consideremos sejam necessários para interpretar boa música barroca ou clássica, mas esta afirmação não se poderia fazer hoje com tanta claridade sem o trabalho prévio começado nos anos 50 do século passado polos Harnoncourt, Leonhardt ou Brüggen. Graças a eles, pudemos aproximar-nos a como eram as cores, os ataques, as dinâmicas ou as intensidades que tinham na cabeça os Monteverdi, Vivaldi, Bach ou Mozart quando compunham, e conhecer como soavam os instrumentos naquela altura.

Este legado fica hoje tanto para músicos que continuam a utilizar instrumentos de época quanto para os que preferem tocar com as correspondentes versões modernas. Além disto, Harnoncourt era um génio absoluto, capaz de localizar numa partitura detalhes nos que centos de intérpretes não repararam durante vários séculos, vejam-se, por exemplo todos os elementos extra-musicais que pode localizar na parte orquestral numa ópera tantas vezes representada como Così fan tutte. E era também um investigador inconformista, que com a mesma honradez que chegava a uma conclusão, podia chegar a outra diferente tempo depois, como nos tipos vocais seleccionados para personagens de óperas. 

Harnoncourt não era um músico limitado que quigesse meter-se num covil -o imprescindível Concentus Musicus Wien que criou em 1953- no que se pudesse tornar numa autoridade absoluta. Aliás, dirigiu com grande autoridade grandes orquestras como a Filharmónica de Berlim, a Filharmónica de Viena ou a Concertgebouw de Amsterdão com magistrais interpretações das sinfonias de Beethoven ou de Bruckner.

Proponho esta gravação do Orfeo de Monteverdi, peça com a que nasce a ópera num sentido moderno pois, da mesma maneira que Monteverdi soube ver outras possibilidades nesse género que se estava a criar além do que faziam os seus contemporâneos da Camerata Bardi, Harnoncourt mostrou-nos muitas cousas que estavam nas partituras mas que éramos incapazes de ver. O seu legado vai ficar com certeza durante gerações de intérpretes ao serviço do engrandecimento da obra dos grandes compositores da História da Música.

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Vinte anos para a Real Filharmonia da Galiza

Hoje a Real Filharmonia da Galiza celebra os seus vinte anos de existência com um concerto dirigido polo seu primeiro diretor titular, Helmut Rilling. Trata-se dum grupo que, graças à enorme qualidade artística e ao compromisso das suas integrantes logrou converter-se em todo um referente dentro das orquestras sinfónicas do Estado espanhol.

Tivem a honra de colaborar com ela numa produção da ópera The Telephone, de Giancarlo Menotti, interpretando o papel de Ben, junto com a soprano Indra Sesti di Luca, a direção musical de Diego Garcia Rodríguez e a artística de Avelino González, com quem já conversámos neste blogue. Trata-se duma jóia da ópera contemporânea escrita nos anos quarenta do século passado mas que retrata de jeito surpreendentemente atual os problemas da falta de comunicação derivados do uso das tecnologias.

Infelizmente, outros compromissos vão impedir que esteja hoje gozando deste concerto, que se vai centrar na obra de Bach, mas confio em continuar a gozar com o bom trabalho deste excepcional conjunto durante muitos anos.

Foto: Xaime Cortizo

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Alessandro Moreschi, o último castrado

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Apesar de que os castrati desapareceram da ópera a finais do XVIII, continuaram presentes na liturgia católica durante o século XIX. O último castrado do que se tem constância é o romano Alessandro Moreschi (1858-1922). Provinha duma família pobre e foi submetido à castração em 1865 para solucionar uma hérnia inguinal. Talvez este dado explique que fosse operado com apenas sete anos, uma excessiva antecipação ao começo da muda da voz. Depois estudaria música e entraria no coro da Capela Sixtina em 1883, onde se tornaria solista e logo diretor até 1912.

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