Papageno ou o Iluminismo na cena lírica

O Papageno é um dos personagens de Die Zauberflöte [A flauta mágica] de W. A. Mozart. Aparentemente trata-se de um simples caçador de pássaros que não tem mais preocupação que comer, beber… e juntar-se com uma Papagena, cousa que logrará quase afinal da peça, quando está a ponto de se suicidar desesperado por não encontrá-la. Uma prova da simpatia que tenho por este personagem está em que Papageno e Papagena são os nomes dos meus cães, além de estar escrito para um barítono.

Mas, ao igual que no conjunto desta ópera -em realidade é um singspiel, gênero que alterna partes faladas e cantadas detrás do Papageno está o pensamento iluminista. Uma mostra, quase ao começo da peça, quando o Tamino lhe pergunta “Quem és?”, o caçador responde-lhe orgulhoso “Que pergunta mais parva! Sou um homem, como tu” sem preocupar-se de que o seu interlocutor fosse um príncipe. O questionamento da sociedade estamental já aparecera nas óperas que o génio de Salzburgo figera junto com o libretista Lorenzo da Ponte, nomeadamente em Le nozze di Figaro.  Não esqueçamos a condição de francomasão de Mozart e de Emanuel Schikaneder, autor do libreto, empresário teatral e primeiro intérprete do passareiro.

O personagem apresenta-se com esta singela canção estrófica “Der Vogelfänger bin ich ja” [Eu sou o caçador de pássaros] -sempre caraterizado com uma flauta de pã- em que expressa as prioridades da sua vida. Proponho esta versão interpretada por um dos grandes, o barítono alemão Hermann Prey, de quem algum dia teremos de falar mais a fundo.

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Violetta Valery

A ópera nasce a princípios do século XVII fruto do interesse duns intelectuais italianos ligados a um grupo chamado Camerata Bardi. Sabiam que os dramas da Grécia clássica se representavam cantados, e trabalhárom por encontrar uma fórmula que lhes permitisse recuperar o género. O mito de Orfeu foi o predileto para levar à cena musical, como figêrom Jacopo Peri, Giulio Caccini e, sobretudo, Claudio Monteverdi. Durante quase dous séculos a ópera vai-se surtir fundamentalmente de temas mitológicos até a chegada do Romantismo quando se incorporam também histórias procedentes de diversos períodos do passado.

Giuseppe Verdi era uma pessoa comprometida com o ser humano do seu tempo, além duma figura de grande carga simbólica no processo de unificação da Itália. Isto provocou-lhe não poucos problemas com a censura. Em Un ballo in maschera tivo de substituir a figura dum rei por um governador pois considerava-se inaceitável levar um regicídio ao palco. Em Rigoletto o vicioso rei de Victor Hugo passou a ser um duque, assunto do qual já falámos anteriormente.

O libreto de Francesco Maria Piave recolhe o fundamental de A dama das camélias de Alexandre Dumas, isto é, uma história contemporânea duma prostituta de alta sociedade que morre sozinha e abandonada por causa da hipocrisia da época. E esta alta sociedade foi a que assistiu à primeira representação de La Traviata no teatro La Fenice de Veneza em 6 de março de 1853. A estreia foi um autêntico insucesso, talvez por uma conjunção de maus intérpretes e dum tema que retratava algumas das misérias da sociedade do momento.

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Cinco momentos que che farão adorar Rigoletto

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Rigoletto (1851) é uma das óperas mais populares de Giuseppe Verdi (1813-1901). Constitui a primeira obra da chamada trilogia verdiana, que se completa com Il TrovatoreLa Traviata, ambas de 1853. Esta denominação não se deve a que exista algum tipo de conexão entre elas senão a pouca diferença de tempo entre as suas estreias e a que representam o começo da etapa de madurez do génio de Roncole.

Rigoletto está baseada na obra teatral de Victor Hugo Le roi s’amuse [O rei divirte-se] (1832) com a que o autor queria denunciar a corrupção na corte de Luís XII (1462-1515) por meio da boca do bufão Triboulet, personagem documentado historicamente.

A censura impediu-lhe a Verdi que se focasse a corrupção na figura dum rei -ao igual que em Un ballo in maschera– rebaixando-a até um duque, neste caso, o Duque de Mantova. O bufão, que se chama agora Rigoletto, é um pai viúvo extremadamente protetor com a sua filha Gilda quem acabará morrendo vítima duma maldição que outro pai afrontado lança contra os viciosos cortesãos mas que apenas o bufão assume.

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