Um madrigal: Il bianco e dolce cigno

Uma das formas musicais polas que tenho uma especial predileção é o madrigal. Talvez isto se deva a que represente o primeiro intento de encontrar uma íntima conexão entre a música e a poesia, rompendo com o modelo estrófico dominante até esse momento.

Jakob Arcadelt (1515-1568) era um desses compositores francoflamengos aos que devemos o desenvolvimento da polifonia, e é o autor deste “Il bianco e dolce cigno” [O branco e doce cisne]. Embora se especulem nomes como Giovanni Guidiccioni ou Alfonso d’Avalos, nada sabemos com seguridade sobre a pessoa que escreveu o texto.

O poema fala-nos dum homem que vê que a sua morte está próxima e que, apesar de afrontar este feito inicialmente com pena, passa a fazê-lo finalmente com serenidade e mesmo com satisfação. O Arcadelt joga maravillosamente com as tensões entre uma textura homofónica -igualmente moribunda- que lhe estava a ceder o seu domínio à polifonia. Não sei se o compositor pensaria neste paralelismo naquela altura, mas o certo é que a substituição duma textura pola outra deu-nos uma das etapas mais brilhantes da história da música puramente vocal.

Com este mesmo texto escreveu também um espléndido madrigal Orazio Vecchi, penso que com óbvias reminiscências do anterior, mas o do amigo Arcadelt chegou antes a mim e com ele fico.

 

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Papageno ou o Iluminismo na cena lírica

O Papageno é um dos personagens de Die Zauberflöte [A flauta mágica] de W. A. Mozart. Aparentemente trata-se de um simples caçador de pássaros que não tem mais preocupação que comer, beber… e juntar-se com uma Papagena, cousa que logrará quase afinal da peça, quando está a ponto de se suicidar desesperado por não encontrá-la. Uma prova da simpatia que tenho por este personagem está em que Papageno e Papagena são os nomes dos meus cães, além de estar escrito para um barítono.

Mas, ao igual que no conjunto desta ópera -em realidade é um singspiel, gênero que alterna partes faladas e cantadas detrás do Papageno está o pensamento iluminista. Uma mostra, quase ao começo da peça, quando o Tamino lhe pergunta “Quem és?”, o caçador responde-lhe orgulhoso “Que pergunta mais parva! Sou um homem, como tu” sem preocupar-se de que o seu interlocutor fosse um príncipe. O questionamento da sociedade estamental já aparecera nas óperas que o génio de Salzburgo figera junto com o libretista Lorenzo da Ponte, nomeadamente em Le nozze di Figaro.  Não esqueçamos a condição de francomasão de Mozart e de Emanuel Schikaneder, autor do libreto, empresário teatral e primeiro intérprete do passareiro.

O personagem apresenta-se com esta singela canção estrófica “Der Vogelfänger bin ich ja” [Eu sou o caçador de pássaros] -sempre caraterizado com uma flauta de pã- em que expressa as prioridades da sua vida. Proponho esta versão interpretada por um dos grandes, o barítono alemão Hermann Prey, de quem algum dia teremos de falar mais a fundo.

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Violetta Valery

A ópera nasce a princípios do século XVII fruto do interesse duns intelectuais italianos ligados a um grupo chamado Camerata Bardi. Sabiam que os dramas da Grécia clássica se representavam cantados, e trabalhárom por encontrar uma fórmula que lhes permitisse recuperar o género. O mito de Orfeu foi o predileto para levar à cena musical, como figêrom Jacopo Peri, Giulio Caccini e, sobretudo, Claudio Monteverdi. Durante quase dous séculos a ópera vai-se surtir fundamentalmente de temas mitológicos até a chegada do Romantismo quando se incorporam também histórias procedentes de diversos períodos do passado.

Giuseppe Verdi era uma pessoa comprometida com o ser humano do seu tempo, além duma figura de grande carga simbólica no processo de unificação da Itália. Isto provocou-lhe não poucos problemas com a censura. Em Un ballo in maschera tivo de substituir a figura dum rei por um governador pois considerava-se inaceitável levar um regicídio ao palco. Em Rigoletto o vicioso rei de Victor Hugo passou a ser um duque, assunto do qual já falámos anteriormente.

O libreto de Francesco Maria Piave recolhe o fundamental de A dama das camélias de Alexandre Dumas, isto é, uma história contemporânea duma prostituta de alta sociedade que morre sozinha e abandonada por causa da hipocrisia da época. E esta alta sociedade foi a que assistiu à primeira representação de La Traviata no teatro La Fenice de Veneza em 6 de março de 1853. A estreia foi um autêntico insucesso, talvez por uma conjunção de maus intérpretes e dum tema que retratava algumas das misérias da sociedade do momento.

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Cinco momentos que che farão adorar Rigoletto

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Rigoletto (1851) é uma das óperas mais populares de Giuseppe Verdi (1813-1901). Constitui a primeira obra da chamada trilogia verdiana, que se completa com Il TrovatoreLa Traviata, ambas de 1853. Esta denominação não se deve a que exista algum tipo de conexão entre elas senão a pouca diferença de tempo entre as suas estreias e a que representam o começo da etapa de madurez do génio de Roncole.

Rigoletto está baseada na obra teatral de Victor Hugo Le roi s’amuse [O rei divirte-se] (1832) com a que o autor queria denunciar a corrupção na corte de Luís XII (1462-1515) por meio da boca do bufão Triboulet, personagem documentado historicamente.

A censura impediu-lhe a Verdi que se focasse a corrupção na figura dum rei -ao igual que em Un ballo in maschera– rebaixando-a até um duque, neste caso, o Duque de Mantova. O bufão, que se chama agora Rigoletto, é um pai viúvo extremadamente protetor com a sua filha Gilda quem acabará morrendo vítima duma maldição que outro pai afrontado lança contra os viciosos cortesãos mas que apenas o bufão assume.

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