Avelino González: “Cheguei à ópera graças às zarzuelas que ia ver com minha mãe”



O Avelino González é um dos profissionais cénicos mais prestigiosos da Galiza. Tivem o prazer de trabalhar com ele numa produção de The Telephone de Gian Carlo Menotti para a Real Filharmonia de Galiza. Desde o primeiro momento fiquei surpreendido pola sua capacidade de gerar ideias e de adaptar-se a um meio, o drama musical, que não era habitual para ele. Quando decidim pôr em marcha este blogue, tinha a certeza que devia ser com uma conversa com ele.

Lembras qual foi a primeira ópera que viste?

Se vale zarzuela…! À minha mãe gostava muito dela, é mui ilustrativa a sua relação com este tipo de espetáculos. Lembro irmos caminhando de noite cedo, desde a casa até o parque de Castrelos onde se representavam. E ali, arrebolados um contra a outra, escutávamos e mirávamos aquilo, que eu não entendia papo. E logo voltávamos caminhando de noite tarde para casa. Os dias seguintes a minha mãe cantarujava canções do espetáculo anterior. Logo deixou de programar-se, logo os programas não quadravam com a minha mãe por sítio, por horas ou por outras cousas… com os anos, agasalhei à minha mãe com discos, mas ela não é deste mundo (do tecnológico). Lembra as canções (à sua maneira) e os espetáculos (também à sua maneira).

Logo já em por mim, cheguei à ópera desde o teatro. Lembro as versões em títeres e o uso de partes de óperas em espetáculos teatrais fora do contexto da ópera. Todo um tema! As mais das vezes, usavam-se peças de óperas para momentos sublimes, ou para finais, e o certo é que quando estavam em sintonia, elevavam o espírito e cambiava-che a respiração. Pola contra, alguma vez que se fazia com a intenção de que essa peça salvasse um espetáculo deficiente, ainda destacava muito mais as carências da obra. Que chivata é a ópera!

E a unha moça da que gostava agasalhei-na com bilhetes para Il Trovatore. Como eu não pudem ir, deu para muito falar.

Qual é a tua relação com a ópera?

Mirão, orelhão,… admirador. Ó primeiro era um espectador de teatro mirando ópera. De primeiras chocavam-me que tivesses que saber o argumento antes de vê-la. Eu perguntava-me onde estava logo a surpresa, a novidade… entendim-o aginha, claro, com o tempo aprendim, não a ouvir nem a ver, senão a ir com uma disposição ao prazer um pouco distinta do teatro.

Quais são os títulos dos que mais gostas?

Non sei se é que gosto deles ou que figeram que gostasse. A flauta mágica, Tannhäuser, (vou pôr a abertura enquanto falamos), Carmen

Como foi a tua experiência de trabalhar com cantantes líricos?

Eu sentia-me como um explorador do século XIX. Num mundo que não conhecia e com uns códigos mui claros. A sensação é de caminhar levado pola mão por gente mui generosa e arriscada, e mui pouco convencional. Quanto prejuízo me caiu por terra!!!

Hai alguma ópera da que gostarias especialmente dirigir?

Buf! Creio que me quedam grandes as que possamos pensar. Mas se poder pudesse, escolheria uma contemporânea de não mais de hora e meia de duração. O tema seria negociável.

Vês justificado que em determinadas produções primem os aspetos físicos na seleção dos cantantes sobre as qualidades vocais?

Penso que tanto a gente que produz, interpreta e dirige, como a gente que acudimos à ópera não temos opiniões mui estritas. Não penso que se possa fazer uma escolha cabal sem ter em conta esses dous aspetos, assim como o conjunto, depois estão a direção da ópera e mais os ensaios para equilibrar. Penso, humildemente, que a ópera, ao cabo, como tantos géneros artísticos, precisa de proporção.

Que lhe dirias a uma pessoa que tenha reparos em ver uma ópera?

A min sempre me funcionou o símil sexual: Sempre hai unha primeira vez (com tudo o que isso implica) E enquanto não o experimentes não podes falar, ou sim, mas não podes saber. Isto para quem esteja claramente à contra. Para quem só adoeça dos prejuízos comuns é mais doado. Volvendo à minha mãe e à zarzuela, se se pode, ela falava dos argumentos e de como tal personagem dizia tal cousa a tal outro. Depois cantava enquanto trabalhava.

Alguma cousa rompeu polo caminho para que a ópera seja considerada um macro-espectáculo para poucos, ou um aborrecimento de pedantes. A minha mãe não entra em nenhuma dessas categorias.