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José Baldomir e Rosalia de Castro: “Maio Longo”

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Este ano cumprem-se setenta da morte do compositor corunhês José Baldomir (1865-1947). É uma das figuras mais relevantes da canção lírica ou canção de concerto galega. O seu estilo enquadra-se dentro das correntes nacionalistas que surgírom na Europa do XIX como reação ao domínio germânico, e na Galiza temos outr@s músic@s salientáveis como Marcial del Adalid, Eugénia Osterberger ou Juan Montes (autor da célebre “Negra sombra”). A produção dest@s autor@s é relevante não só devido à sua qualidade senão também ao facto de que a canção galega se desenvolvesse de maneira simultânea à de outros territórios como a França, a Chéquia ou os países escandinavos, pois os autor@s mencionados são contemporâne@s dos Debussy, Ravel, Fauré, Dvořák ou Grieg.

“Maio longo” apresenta a caraterística estrutura de lied tripartito, com uma secção em fá maior, que corresponde com a primeira estrofe, uma segunda em lá maior mais uma volta à primeira. Como podemos comprovar seguindo o texto, Baldomir realiza uma repetição que não está presente no texto original, com o que multiplica o valor do texto da primeira estrofe.

          Maio longo… Maio longo,
          todo cuberto de rosas,
          para algús telas de morte,
          para outros telas de vodas.

          Maio longo, Maio longo,
          fuches curto para min,
          veu contigo a miña dicha,
          volveu contigo a fuxir.

Baldomir tinha uma clara predileção por Rosalia de Castro, de facto, para além deste “Maio longo”, musicou também “A un batido”, “Eu levo unha pena”, “Cava lixeiro”, “Mais ve…”, “No ceo, azul clarísimo”, “Por que?”, “Quérome ire”, “Tal com’as nubes” e “Ti onte mañán eu”. Nos próximos meses vai ser publicada polo Conselho da Cultura Galega uma reedição das canções de Baldomir feita por Margarita Viso, que confiamos sirva para divulgar esta produção.

Ofereço esta versão, que realizei recentemente com o pianista Cándido Cabaleiro no ciclo de concertos “Explurart”, no Auditório Martim Códax de Vigo. Transportamos a peça à tonalidade de mi bemol maior, que encaixa melhor com o centro vocal dum barítono. Esta prática do transporte é habitual no lied ou canção de concerto, pois tem a finalidade de que este repertório poda ser interpretado por qualquer tipo de voz.

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Guillem Carbonell: “Estamos na época da tirania dos encenadores e das suas equipas”

Guillem Carbonell Riera (Barcelona, 1967) licenciou-se em Arqueologia e em História da Arte pola Universidade de Barcelona, mas a sua paixão polo drama musical converteu-no num dos diretores de cena operísticos mais prestigiosos do mundo. Trabalha no Teatro Real de Madrid desde 1997, onde participou em mais de cem títulos de ópera e de ballet com as maioria dos principais encenador@s, diretor@s musicais e cantor@s do nosso tempo. Nesta entrevista ajuda-nos a entender melhor como é a montagem duma ópera, quais são as suas funções e dá-nos a sua visão da situação do género na atualidade.

 

Qual é a função geral dum diretor de cena?

É um ofício do teatro. É a pessoa responsável da organização dos movimentos e dos efeitos cénicos dispostos polo encenador, e intermédia entre este o resto da equipa ténica. É o stage manager dos países de língua inglesa, o régisseur francês -de onde toma o castelhano o termo “regidor”-, o Inspizient alemão ou o direttore di scena italiano, e é considerado como a máxima autoridade no palco e o responsável direto do espetáculo logo que começar a função ou o ensaio.

No mundo do espetáculo ao vivo, os diretores de cena são as pessoas que têm por missão montar as obras conforme com o acordado pola direção teatral e levar a ordem do espetáculo durante o decurso do mesmo, prevendo e avisando os atores e os técnicos das suas respetivas intervenções cénicas e seguindo as diretrizes especificadas na correspondente partitura, que funciona como roteiro. O regedor intervém nas três fases duma produção, isto é: pré-produção, ensaios e representação.

 

Como se organizam a pré-produção e os ensaios?

Na fase de pré-produção, a tarefa do diretor de cena é o estudo do projeto e a confeção do roteiro, assistência aos castings e a preparação de listagens de necessidades cenográficas, de vestuário e adereços.

Os primeiros ensaios costumam começar numa sala de ensaios. Os cometidos do diretor de cena nesta fase são assistir o encenador e intérpretes com os seus adereços, marcar tempos de ensaios, anotar entradas e saídas de intérpretes, atualizar a informação, coordenar e informar a produção e a direção técnica do desenvolvimento dos ensaios e coordenar e informar produção e direção técnica do desenvolvimentos destes e coordená-los com provas de vestiário, realizar a citação diária junto com o diretor de cena e comunicá-la, entre outras tarefas.

Depois os ensaios realizam-se no palco, onde deve ocupar o seu posto o diretor de cena e, mediante o sistema de intercomunicação, dá as ordens das mudanças de decorado, luzes, efeitos de som que se fossem fixando na primeira fase de ensaios.

 

Qual é a função do diretor de cena durante as representações?

Deve fazer a comprovação de que todos os elementos técnicos e humanos estão preparados para começarem a representação e depois dar os avisos de início de função. Logo, mediante o sistema de intercomunicação, vai dando as prevenções e as execuções pertinentes a cada secção para que o espetáculo decorra segundo o estabelecido durante os ensaios pola direção cénica. Em caso de imprevisto, deve tomar ele as decisões pertinentes, mas todo o trabalho realiza-se conjuntamente com o técnicos.

 

Que che levou a dedicar-te a isto?

A verdade é que foi uma conjunção de fatores que propiciárom a decisão. Estava-me a preparar para ser mestre de História, a verdade e, enquanto estudava, comecei a trabalhar como ator ou figurante no teatro do Liceu da minha cidade natal (Barcelona). A doença da ópera veio-me com tal paixão que resolvim dedicar-me a isto profissionalmente. Comecei a estudar solfejo e a ampliar os meu conhecimentos em idiomas (inglês, italiano e francês), tudo isto compaginado com os estudos universitários e com o trabalho.

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Rusalka over the rainbow

Rusalka (1901) é a mais popular das dez óperas do compositor checo Antonín Dvořák (1841-1904). A sua obra enquadra-se dentro das estéticas nacionalistas que surgírom na segunda metade do XIX como reação contra a hegemonia da música alemã. Aliás, acho que de ter sido alemão ou austríaco a consideração da sua obra seria ainda mais elevada. Além das suas óperas, foi um brilhante cultivador de todos os géneros com o máximo nível de qualidade, como a música sacra (Requiem, Stabat Mater), a música de câmara, a canção de concerto e, sobretudo, a sinfonia. De facto, a sua obra mais interpretada é a última delas, a novena, conhecida como “Do novo mundo”, composta nos EUA e baseada no folclore deste pais. Aproveito para lembrar que este movimento musical nacionalista também se deu na Galiza graças a grandes compositores como Marcial del Adalid (1826-1881), Juan Montes (1840-1899) ou José Baldomir (1867-1947).

Antonín Dvořák era o filho dum carniceiro do pequeno lugar de Nelahozeves. A lógica intenção do pai era que continuasse com o negócio familiar e, para prosperar, como estavam baixo o domínio do império austro-húngaro, enviou-no a aulas privadas de alemão para que aprendesse esta língua. No entanto, resultou que o professor escolhido era também músico e, perante as dotes musicais do pequeno e o seu interesse em aprender música, foi esta disciplina a que realmente aprendeu sem o conhecimento do pai.

Na mitologia eslava, Rusalka é um espírito das águas que mora em rios ou em lagos em quem se baseou Jaroslav Kvapil para escrever o libreto da ópera. A personagem que intitula o drama costuma ser interpretada por uma soprano lírica ou spinto. A sua ária dedicada à lua é talvez o momento mais célebre desta obra. De facto, na sua melodia inspirou-se subtilmente o compositor Harold Arlen para o refrão da canção “Over the rainbow” pertencente ao filme The Wizard of Oz (1939) como podemos comprovar no minuto 1:25 desta versão. Continuando com a nossa linha de reivindicar grandes vozes do passado, propomos a soprano eslovaca Lucia Popp, especialmente reconhecida por papéis mozartianos mas também de outros autores como Richard Strauss. Nesta ligação podes seguir o texto original checo e uma tradução.

 

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Alberto Zedda (1928-2017)

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Estava a ponto de publicar um comentário sobre a Rusalka de Dvořák quando me informárom da morte de Alberto Zedda. O facto de ter sido um grande especialista em Rossini, tanto como intérprete como autor das principais edições das partituras do cisne de Pesaro -cidade onde casualmente acaba de falecer- ocultou para o grande público o seu grande conhecimento de todo o repertório operístico.

Conhecim o maestro um par de anos atrás graças às masterclasses que organizou a Associação de Amigos da Ópera da Corunha. Detrás dessa aparência de hominho idoso e de sorriso zen ocultava-se um colosso cada vez que se punha diante duma orquestra ou que fazia indicações a um cantor/a. Os seus conselhos eram sempre precisos, rigorosos e brutalmente honestos. Precisamente devido a essa merecida fama de experto em Rossini que tinha, levava eu um repertório rossiniano que preparara às pressas, pois eram obras que não costumava trabalhar, quando vim que o seu conhecimento de Mozart, de Verdi ou de Puccini era tão grande como o que tinha do autor de Il barbiere di Siviglia, e decidim aproveitá-lo para revisar outros personagens com que estava mais familiarizado. Com ele aprendim cousas que já não se ensinam.

Além de tudo isso, foi uma pessoa mui ligada pessoal e profissionalmente à Galiza, especialmente à Corunha. Deixo aqui vídeo gravado nesta cidade onde resume a sua visão da voz lírica.

Que a terra lhe seja leve, maestro.

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De Fígaro a Fígaro

É frequente que, ao mencionar a ópera As bodas de Fígaro de Mozart a pessoa que tenho diante comece a repetir a célebre fórmula “figarofigarofigarofigaro…”. Trata-se do mesmo personagem? Sim, mas com matizes…

Em realidade é o mesmo Fígaro, que pertence à trilogia de Pierre de Beaumarchais composta polas obras Le Barbier de Séville (1775), La Folle Journée, ou le Mariage de Figaro (1784) e L’Autre Tartuffe, ou la Mère coupàble (1790). Em Le nozze di Figaro [As bodas de Fígaro] Mozart começa uma brilhante colaboração com o escritor italiano Lorenzo da Ponte, quem vai ser o autor do libretto desta ópera -baseado na segunda das obras de Beaumarchais- e depois de Don Giovanni e de Così fan tutte. O texto de Le nozze tivo de superar diversas dificuldades, pois foi proibido polo censor devido às críticas à aristocracia. Trás eliminar da Ponte um discurso de Fígaro crítico com os privilégios hereditáros da nobreza e modificar outros elementos, o imperador José II autorizou a sua representação no Burgtheater de Viena em 1 de maio de 1786. Não esqueçamos que Mozart era defensor dos princípios do pensamento iluminista.

Trinta anos depois vai ser Rossini quem ponha música a Le Barbier de Séville com o título Almaviva o sia l’inutile precauzione, que se popularizaria com o nome de Il barbiere di Siviglia. Não padeceu tanto os problemas da censura mas sim a resistência prévia do público, que considerava um sacrilégio que se atrevesse a fazer uma ópera com o mesmo argumento utilizado por Giovanni Paisiello em Il barbiere di Siviglia, ovvero la precauzione inutile, estreada em 1782.

Fígaro é um barbeiro de Sevilha que, no primeiro livro -o adaptado por Paisiello e por Rossini- ajuda o Conde Almaviva a obter a mão da Rosina, que vive sequestrada na casa do seu tutor e pretendente Bartolo. Na segunda parte o Conde torna em rival do Figaro pois pretende exercer o direito de pernada com a Susanna, a namorada do Barbeiro. A terceira parte não vai ser adatada até 1966, ano da representação de La mère coupable, com música de Darius Milhaud e libretto de Madeleine Milhaud.

A cavatina “Largo al factotum” é uma das peças mais célebres da história da ópera. O Fígaro rossiniano está concebido para um barítono lírico, isto é, com facilidade as agilidades e para ir com frequência ao agudo. No entanto, também é uma peça utilizada por barítonos de registo mais dramático -como vemos nesta gravação de Leo Nucci- para mostrarem as suas qualidades técnicas.

“Non più andrai farfallone amoroso” é uma ária que fecha o primeiro ato de As bodas de Fígaro. Talvez seja uma das melodias preferidas de Mozart, pois ele mesmo volve citá-la no finale de Don Giovanni junto com outros fragmentos de óperas populares na altura. Apesar de que na época de Mozart as vozes masculinas só se denominavam “tenor” e “baixo”, não todos os papeis mozartianos de baixo podem ser cantados por qualquer baixo nem os de tenor qualquer tenor. O tipo ótimo para Fígaro é o que hoje conhecemos por baixo-barítono, situado na fronteira dos dous registos e que seria potenciado a meados do XIX por Richard Wagner com personagens como Wotan ou Holländer. No entanto, esta vez vou escolher um baixo, um grandíssimo baixo como Cesare Siepi para ilustrar esta peça.

E imos concluir com mais excecionalidades: um mesmo barítono, Hermann Prey, que interpretou os dous papéis. Bom proveito!

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Hildegard von Bingen em Ramirás

Gozei imenso com O espello do mundo, o magnífico romance de Ramón Nicolás. Além das múltiplas virtudes do livro, devo confessar que a sua leitura foi especial para mim por dous motivos especiais: o passeio polo Ramirás medieval e a presença da figura de Hildegard von Bingen.

Ramón Nicolás é um filho do lugar de Escudeiros, criado em Vigo, como o sou eu de Vilherinho (Paiçás), mas criado em Ourense. Lembro que Escudeiros era um dos lugares por onde passávamos a caminho de São Gregório para comprarmos café, açúcar ou as tópicas toalhas. A-propósito, quando estava em São Gregório ou em Melgaço, não percebia a existência de fronteira linguística alguma, esse seria um conceito que aprenderia mais tarde de certos livros.

O romance está centrado numa fictícia superiora do Mosteiro de São Pedro, contemporânea de Hildegard von Bingen, a ona Guiomar, que mantém uma relação epistolar com a beneditina alemã. Apesar de tê-lo visitado antes várias vezes, não descobrim a importância deste mosteiro -e também do priorato de São Salvador de Paiçás- até o Bacharelato, quando tivera de fazer um trabalho de investigação do nosso património que nos encomendara o professor Xabier Límia. É pois nesta época dourada do Reino da Galiza -de que já falámos a respeito do Códice Calixtino- onde se localiza o romance.

Hildegard von Bingen (1098-1179) é uma multifacetada personagem que, enquanto compositora, escreveu fundamentalmente música monódica (que tem uma só voz) para interpretarem as monjas das sua comunidade. As suas melodias costumavam ser mais longas e ornamentadas do que a música dos seus contemporâneos. A sua produção musical reúne-se em dous volumes: o drama Ordo virtutum e uma coleção de cantos litúrgicos ou semi-litúrgicos chamada Symphonia armonie celestium revelationumOrdo virtutum é o único drama sacro medieval de cuja música e texto conhecemos a autoria. Dezoito cantoras representam as Virtudes e a sua Rainha, a Humildade, que devem lutar contra o Demo, personagem escrito para uma voz masculina que não canta, pois o mal só podia ser representado por berros desagradáveis ou por sons animais. Neste auto aparece também um coro masculino (os Profetas e os Patriarcas) e outro feminino (as Almas).

Deixo aqui um vídeo da peça completa e esta ligação para o texto originário latino e uma tradução ao inglês.

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Nicolai Gedda (1925-2017)

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A semana passada soubemos da morte do tenor sueco Nicolai Gedda. Em realidade morrera um mês atrás, mas a família preferiu aguardar várias semanas para comunicá-lo. É um dos cantores que interpretou uma maior variedade de papéis e em mais línguas diversas, a isto último ajudaria o facto de ter crescido bilíngue em sueco e russo e de ter aprendido alemão também de criança.

O seu repertório habitual era o dum tenor lírico, apesar de ter experimentado roles mais ligeiros (Nemorino, Almaviva) ou mais próprios dum spinto. (Don José, Pinkerton). Assinalaria entre as suas principais qualidades uma impecável dicção do texto -independentemente da língua em que cantasse- e uma grande elegância no fraseio. A sua carreira foi longa, pois durou mais de sessenta anos, sendo capaz de manter uma grandíssima qualidade vocal durante toda ela.

Uma das suas especialidades era a ópera romântica francesa, por isso o vídeo que proponho para a sua lembrança é esta cavatina do Faust de Charles Gounod “Salut, demeure chaste et pure”, onde interpreta o personagem que dá nome à ópera.

Que a terra lhe seja leve, maestro.

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Kathleen Ferrier

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A respeito da morte do crítico musical José Luis Pérez de Arteaga, um confesso mahleriano, falou-se muito da importância da contralto inglesa Kathleen Ferrier (1912-1953) no início sua devoção polo compositor austríaco. Já introduzimos uma gravação sua neste blogue quando explicamos o que é uma canção de concerto, mas hoje imos-lhe dedicar a postagem completa.

Ferrier é um dos poucos exemplos de contralto pura, pois é um tipo vocal mui escasso nas vozes de mulher. De facto, é habitual que se utilizem mezzo-sopranos para estes roles devido a esta escasseza. O procedimento de utilizar tipos vizinhos já o comentámos na entrada anterior ao falarmos do tenor spinto, embora o número de contralto seja ainda mais reduzido.

Apesar de ser no terreno da canção de concerto onde, se quadra, Ferrier deixasse uma pegada mais profunda, não podemos esquecer anedotas como uma função do Orfeu e Eurídice (1762) de Christoph W. Gluck, em que continuou a cantar após quebrar uma perna. Propomos precisamente a famosa ária de Orfeu “Che farò senza Euridice” (junto com o recitativo prévio), onde o filho da musa Calíope se lamenta da sua namorada Eurídice. Trata-se provavelmente do último grande personagem escrito para um castrado, aliás, pertence a um título fundamental na história da ópera, pois é onde Gluck enuncia os princípios da sua reforma, com que pretende acabar com os abusos a as arbitrariedades às que se chegara nos últimos anos do Barroco em favor duma maior clareza na música e na trama, acorde com os princípios do Iluminismo.

A melhor maneira de que luza uma voz larga e escura como a de Ferrier e, precisamente, aplicar os princípios de singeleza e de elegância do Classicismo. Isto consegue-se permitindo que flua o som com naturalidade deixando que o fraseio da música e os acentos do texto façam o resto e fugindo de qualquer tipo de artifício. Isto, que parece mui simples é, em realidade, o mais difícil. Por isso adoramos cantoras como Kathleen Ferrier.

 

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Franco Corelli e o tenor spinto

Franco Corelli (Ancona, 1921 – Milão, 2003) é um dos mais notáveis exemplos de tenor spinto. Trata-se dum tipo vocal entre um tenor lírico (próprio de personagens como o Tamino de Die Zauberflöte, o Alfredo de La Traviata ou o Marcello de La Bohème) e um dramático (caraterístico de heroes wagnerianos como o Tristão ou o Tannhäuser, pertencentes às óperas homónimas). O tenor spinto (do italiano “spingere”, que significa “empurrar”) foi fundamentalmente criado por Giuseppe Verdi, para o que escreveu personagens como o Riccardo, o Don Carlo ou o Manrico, apesar de termos algum precedente como o Pollione da Norma de Vincenzo Bellini.

Este tipo vocal não é particularmente abundante dentro dos tenores, de aí que seja frequente que determinadas produções recorram a tenores líricos para interpretarem estes personagens. Estas práticas costumam trazer dous problemas. O primeiro, normalmente um tenor lírico não tem a cor nem a robustez -especialmente no centro da voz- para interpretar estes personagens. A segunda dificuldade tem a ver com a saúde vocal do cantor, pois ao trabalhar num registo menos natural para a sua voz, submete-a a uma pressão que acaba provocando problemas no passar do tempo.

Corelli foi um tenor atípico, pois formou-se de maneira autodidata e viveu à margem da opinião da crítica, já que parte desta considerava que o seu estilo era próprio doutros tempos. Tinha exigências particulares, como comer antes de cada função um bife tártaro com abundante limão e alho cru. Conta-se que se negou a cantar na ópera de Paris porque não lhe colocaram o tapete vermelho no aeroporto Charles de Gaulle para recebê-lo.

Quanto às caraterísticas da sua voz, podemos sintetizá-las dizendo que é mui homogénea em toda a sua extensão, pois conserva a mesma robustez no grave, no centro e no agudo. Apesar de que, como já comentámos, o termo spinto signifique “empurrado” -devido ao caráter dramático destes personagens- Corelli não se vale do excesso de pressão de ar para obter este dramatismo nem para ser audível frente a uma densa orquestra de fundo. O equilíbrio entre a profundidade que dá à sua laringe e o uso dos diversos ressonadores é perfeito, resultando uma voz maciça, brilhante e potente. Estilisticamente, salientaria sua capacidade de declamar cada sílaba, e de jogar com as pausas, as respirações e os acentos.

Um clássico exemplo de tenor spinto é o Calaf de Turandot. A célebre ária “Nessum dorma” foi cantada por infinidade de tenores, não sempre aptos para este personagem. É certo que para apreciar bem as caraterísticas duma voz em particular é necessário escuitá-la num teatro, pois numa gravação não se pode valorizar completamente a sua sonoridade.

Já no começo da sua intervenção podemos observar como as palavras “nessum dorma” soam com a mesma cor quando as canta em registo central-agudo como quando as repete no grave, e a sua capacidade de acentuar com clareza as sílabas “ne” e “dor” sem desequilibrar a linha de canto é portentosa. Às vezes estes breves recitativos -aparentemente singelos- são os fragmentos mais difíceis de afrontar para um cantor ou cantora. Se observamos o seu pescoço, vemos que coloca a laringe continuamente para baixo, o qual dá uma grande profundidade à sua voz, sem descuidar o brilho que tem o som graças ao uso dos ressonadores da parte frontal da cabeça, o que se chama a máscara. O equilíbrio entre estas duas dimensões é sempre um grande desafio para qualquer cantor/a líric@.

Só resta escuitar o resto do vídeo e gozar com a música de Puccini e com a interpretação de Corelli.

Podes escuitar mais Corelli nesta lista de reprodução:

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Margarida na roca

Hoje imos comentar uma canção de concerto, ou Lied, forma de que já falámos há uns meses. E voltamos a Franz Schubert (1797-1828), o autor mais prolífico desta forma, quem com apenas dezoito anos pôs música a este fragmento do Faust de Goethe intitulando-o “Gretchen am Spinnrade” [Margarida na roca].

Faust é uma tragédia em verso que conta a história dum home que fai um pacto com o demo Mefistófeles para recuperar a juventude, o que aproveita para seduzir Gretchen. Nesta cena, a rapariga está a pensar no Faust enquanto fia na roca. O piano descreve o movimento do aparelho, que é mecânico mas também solidário com os pensamentos da moça, utilizando a mão direita para representar a roda e a esquerda para o pedal.

Schubert utiliza a primeira estrofe a jeito de refrão para separar as distintas seções da canção. A primeira delas, formada por três estrofes, é uma apresentação do ânimo da Gretchen. Schubert volta rebaixar depois a tensão mediante o refrão e começa a segunda parte em que a Gretchen fala das saudades por Faust. O compositor utiliza um sugestivo fá maior para a lembrança dos seus andares começando um processo progressivo de tensão que culmina na recordação do beijo do amado. Nesse momento a máquina para de fiar porque a Gretchen desconetou completamente do seu trabalho e retoma a atividade de vagar para apresentar o refrão pola terceira vez. Nesta última seção a tensão é máxima “o meu peito apura por ir onda ele” diz a rapariga para concluir com “nos seus beijos poderia morrer”. Finalmente, a jeito de coda, Schubert volta utilizar os dous primeiros versos do refrão.

Acompanhamos uma versão da soprano Gundula Janowitz e do pianista Irwin Gage e o texto junto com uma tradução:

 

 

Meine Ruh’ ist hin,

mein Herz ist schwer,

ich finde sie nimmer

und nimmermehr.

 

Wo ich ihn nicht hab

ist mir das Grab,

die ganze Welt

ist mir vergällt.

 

Mein armer Kopf

ist mir verrückt,

mein armer Sinn

ist mir zerstückt.

 

Meine Ruh’ ist hin…

 

Nach ihm nur schau ich

zum Fenster hinaus,

nach ihm nur geh ich

aus dem Haus.

 

Sein hoher Gang,

sein’ edle Gestalt,

seine Mundes Lächeln,

seiner Augen Gewalt,

 

Und seiner Rede

zauberfluß,

sein Händedruck,

und ach, sein Kuß!

 

Meine Ruh’ ist hin…

 

Mein Busen drängt sich

nach ihm hin.

ach dürft ich fassen

und halten ihn,

 

Und küssen ihn,

so wie ich wollt,

an seinen Küssen

vergehen sollt!

 

Meine Ruh’ ist hin…

A minha paz foi-se,

o meu coração é pesado,

não o vou encontrar nunca,

nunca mais.

 

Não o ter comigo

é uma tumba para mim,

o mundo inteiro

sabe-me amargo.

 

A minha pobre cabeça

fica tola,

o meu pobre pensamento

desgarra-me.

 

A minha paz foi-se…

 

Só para ele olho

pola janela,

só por ele vou

fora da casa.

 

O seu alto andar,

a sua nobre figura,

o sorriso da sua boca,

o poder dos seus olhos,

 

E o mágico fluir

da sua boca,

a sua mão que me segurava,

e, ai, o seu beijo!

 

A minha paz foi-se…

 

O meu peito apura

por ir onda ele.

ai se pudesse pegá-lo

e abraçá-lo,

 

E beijá-lo,

como adoraria,

nos seus beijos

poderia morrer!

 

A minha paz foi-se…

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