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Mirella Freni (1935-2020)

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Esta é a primeira grande perda lírica de 2020. A maior parte dos cantores e das cantoras tentamos fazer música numa tensão constante com a nossa voz para podê-la levar ao rego. Freni não precisava disso, tinha um absoluto domínio dum instrumento que sometia aos seus desejos com uma dutilidade assombrosa.

Conta o meu maestro José Antonio Campo uma anedota nuns ensaios de Don Carlo na Ópera de Viena, dirigidos por Claudio Abbado, que representa mui bem esta faculdade. Após interpretar uma ária tão exigente como “Tu che le vanità” com uma naturalidade incrível, dirige-se ao diretor e diz: “Claudio, agora sobre uma perna”. E assim a cantou, sem perder nada de qualidade vocal nem de expressão.

Como homenagem, proponho esta “Si, mi chiamano Mimi”, de La Bohème, que cantava uma estrela de trinta anos. Que a terra che seja leve.

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Algumas claves de Fidelio

Este é o grande ano de Beethoven, pois cumprem-se 250 do seu nascimento. A contribuição deste génio à música vocal é imensa: a 9ª Sinfonia, os lieder, oratórios, a Missa Solemnis… Hoje propomos esta infografia sobre o seu singspiel Fidelio, de que já falámos um tempo atrás a respeito das inovações vocais do personagem Florestan.

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Sedia la fremosa

Hoje vou falar desta maravilha gravada polo grupo Manseliña, formado por Maria Giménez, Belén Bermejo, Pablo Carpintero e Tin Novio. Trata-se de um disco que fai essa necessária conexão entre a nossa música culta medieval e aquela de índole tradicional que chegou aos nossos dias. O seu título -e o nome do grupo- está tirado duma cantiga de amigo de Estevão Coelho, musicada também neste disco junto com um alalá de Noia:

Sedia la fremosa seu sirgo torcendo,

sa voz manselinho fremoso dizendo

cantigas de amigo.

Assim, encontramos também emparelhadas cantigas de Santa Maria como “Rosa das rosas” ou “Virga de Jesse” com “A flor da iagua” e com uma espadelada de Penosinhos, “Ay, ondas que eu vin veer” ou “Quantas sabedes amar” de Martim Codax com “Alipreste, ramo triste” e com “Muito chorei eu”.

Muitos parabéns, portanto, para o Manseliña e longa vida para este CD!

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Jessye Norman (1945-2019)

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Um sinal do passar do tempo é que, até agora, costumava lamentar a morte de cantoras e de cantores que conhecim quando já estavam retiradas, ou pudem ouvir longe dos seus melhores anos. Assim fum vendo como nos deixabam Ángeles Gulín, Renata Tebaldi, Victoria de los Ángeles, Elisabeth Schwarzkopf, Joan Sutherland, Elena Obraztsova, Montserrat Caballé, Piero Cappuccilli, Cesare Siepi, Franco Corelli, Nicolai Ghiaurov, Luciano Pavarotti, Jon Vickers, Nicolai Gedda ou Dietrich Fischer-Dieskau entre outras.

Esta manhã recebemos a triste notícia do falecimento de alguém de quem gozei na sua época de plenitude, essa grande dama da cena lírica que foi Jessye Norman. Embora vaia ser lembrada seguramente polos seus Wagner e Strauss, hoje deixo aqui este maravilhoso lamento de Dido “When I am laid in earth” da ópera de Henry Purcell Dido and Aeneas. We will remember. Que a terra che seja leve.

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Antigos e modernos

No post anterior falava de duas maneiras de abordar a música antiga, quer com instrumentos de época ou quer com instrumentos modernos. Estas duas conceições geraram durante décadas dous bandos incomunicados, os denominados antigosmodernos. Considera-se que o grande momento de convergência entre as duas partes foi a participação de um antigo, Nikolaus Harnoncourt, num evento de modernos, o Festival de Salzburgo onde dirigiu a Chamber Orchestra of Europe em 1992.

Esta simbiose gerou produtos maravilhosos, e mostrou que as duas tendências eram legítimas e necessárias. Trago aqui uma amostra mais recente deste diálogo, onde uma antiga, Emmanuelle Haïm e o seu Le Concert d’Astrée oferece uma deliciosa versão da célebre canção de Claudio Monteverdi “Si dolce è’l tormento” com um cantor lírico de “sala grande” como é o tenor Rolando Villazón. Esta gravação tem, na minha opinião outro valor adicionado. O habitual noutros tempos era vermos uma cantora solista dirigida e acompanhada por um grupo masculino, mas aqui acontece exatamente o contrário, o homem canta e as mulheres dirigem e acompanham.

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Confesso ter sido um idiota

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Tempo atrás dediquei-me, entre outras cousas, a criticar as versões com piano de obras barrocas, como as Variações Goldberg por Glenn Gould. Mas, agora podo dizer com clareza: fum um idiota!

É certo que durante muitos anos houve escasso interesse por investigar a organologia ou a estética da música anterior ao Romantismo. Como reação a isto, surgiram na década de 60 do século passado -fundamentalmente nos Países Baixos- uma série de músicos que trabalharam por oferecer versões que pudessem estar o mais perto possível da sonoridade original das peças escritas no Barroco. Aí apareceram os trabalhos de Frans Brüggen (1934-2014), Nikolaus Harnoncourt (1929-2016), Gustav Leonhardt (1928-2012), Ton Koopman (n. 1944) ou John Eliot Gardiner (n. 1943). Graças e eles descobrimos a doçura do oboé sem chaves, a redondez do traverso barroco ou a calidez da tromba natural. Após ouvirmos isto, já nem queríamos saber nada de esse instrumento usurpador chamado piano para este repertório.

O que costuma acontecer é que, à sombra destes maravilhosos maestros, foram aparecendo como cogumelos outr@s intérpretes que só tinham interesse nos aspetos mais superficiais do historicismo e a música acabou passando a um segundo plano nas suas performances. Junto com isto, com o passar dos anos, fomos vendo também que, por exemplo, Sokolov não precisava de um cravo para Couperin soar a Couperin, ou que Mutter podia fazer um brilhante Vivaldi com uma orquestra de instrumentos modernos:

Quando fundámos o Herbens Consort, em 2013, concordámos na ideia de utilizar instrumentos de época, mas sem nos circunscrever a nenhuma estética concreta, e assim fizemos:

E Gould? Esse tolo obsesso pola sua cadeirinha onde sentava e polos estudos de gravação em que parecia querer ocupar o lugar de Bach? Pois, confesso, é uma delícia.

Juventude seduzida polo integrismo historicista, a tua doença tem cura, pode levar tempo, mas cura. Se hoje consideras isto pouco rigoroso, é possível que dentro duns anos seja um regalo para os sentidos.

Nota final. Embora este blogue esteja dedicado fundamentalmente à música vocal, às vezes resulta terapêutico sair deste terreno e explorar outros. Contudo, dado que a voz de Gould  se pode perceber de fundo em muitas gravações, podemos considerar que não saímos excessivamente da ideia inicial 😉

 

 

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