Antón de Santiago: “Não concebo melhor prazer que o do canto lírico”

Por 0 , Permalink 0

Antón de Santiago Montero (A Corunha, 1944) não precisa de apresentação para qualquer profissional ou afeiçoad@ ao canto lírico na Galiza. Neto do mítico dramaturgo corunhês Nito, com quem deu os seus primeiros passos na cena, este homem do Renascimento leva dedicado toda a sua vida à interpretação, ao ensino e ao estudo da arte do canto, além doutras muitas atividades que aparecerão nesta conversa. Este sábado, na corunhesa igreja de Santiago, o primeiro lugar no que cantou, um grupo de alun@s e amig@s faremos-lhe um concerto-homenagem ao que convidamos a todo o mundo a que se una.

Como é que numa época na que a gente quer retirar-se o antes possível tu teimasses em trabalhar até o último minuto que che permitirom?

Não concebo melhor prazer que o do canto lírico e, no seu lugar, orientar a gente nova para que alcance um bom nível técnico e interpretativo. Por min, eu ainda continuava…

E que diferenças vês no sistema desde que começache a dar aulas?

Se bem os alunos são similares em faculdades e em talento, como também na diversidade das suas personalidades, no anterior sistema ou plano de estudos (o do 66), alcancei os melhores resultados, pois podia orientá-los desde o primeiro momento até a fim da carreira. E assim os houve que lograram matrícula de honra e prémio de fim de carreira. Agora também se pode conseguir, mas com mais esforço.

Que possibilidades laborais tem uma pessoa que estuda hoje canto num conservatório superior?

Qualquer sucesso passa sempre por ter as indispensáveis faculdades vocais e por alcançar um nível superior à hora de cantar. Também hai que reunir certas doses de ambição -sem vaidades- e de determinação para poder aprender constantemente.

Se pudesses volver atrás, terias feito alguma cousa doutro jeito? 

Crer mais em mim desde o começo. Tardei demasiado em tomar o caminho em sério. Quando cheguei à Escola Superior de Canto de Madrid cumpria trinta e três anos, logo houvem de mudar de tessitura, e passar de tenor a barítono. Depois ganhei o Concurso de Logronho, o mesmo que ganhara-o o ano antes María Bayo, com a diferença de que ela tinha vinte e poucos e pudo fazer carreira e eu quase quarenta e centrei-me na docência, na rádio, nos recitais e na composição. En definitiva, fazia o que eu queria, mas já não me ficava tempo para fazer uma carreira no teatro.

Valeu a pena tanto trabalho?

Com certeza que sim, foi como diziam aqueles de París: a mim quedava-me a ensinança, que me fijo mui feliz.

Deixas as aulas do Conservatório, mas suponho que andarás cheio de projetos. Que nos podes contar?

Depois de estrear e de dirigir vinte e seis obras de teatro de humor, iniciei-me recentemente na novela. Venho de publicar Custodio ou a fe do Carboeiro, uma olhada humorística sobre o roubo do Códice Calixtino, tenho outra rematada mais dramática -mas ainda sem publicar- e já comecei com uma nova. E estão também aí as minhas colaborações com artigos para os programas da Orquestra Sinfónica da Galiza, da Real Filharmonia da Galiza, da Temporada Lírica da Corunha e de outros festivais, assim como em La Voz de Galicia e o meu programa “Allegro de domingo” em Radio Voz. Uma tarefa imediata é poder publicar o que escrevo, como as partituras das Cantigas Líricas Galegas que tenho compostas e que já estão gravadas em disco.

Apesar de seres uma pessoa multifacetada, és fundamentalmente conhecido por todo o que tem que ver com o canto. De qual das tuas outras atividades gostarias ter um reconhecimento mais grande?

As minhas três devoções são a Música, o Teatro e a Literatura. Ter a aceitação do público em todas elas poderia ser um íntimo desejo. E, se quadra, também que na miña cidade, A Coruña, se me reconheça o cultivo do Apropósito de Carnaval -aquelas vinte e seis obras estreadas desde 1984 a 2011- isto é, os Apropósitos da democracia ou prácticamente a ‘era Paco Vázquez’. O meu avô, que os fijo com anterioridade, tem um busto olhando ao Orçám. Será muito para mim, mas aspiro polo menos à lembrança dos meus concidadãos, que se quadra não chega até dentro de cem anos (ri).

Algum conselho para um jovem que se queira dedicar profissionalmente ao canto?

Sensibilidade musical, faculdades vocais e vocação para estudar adequadamente. Em resumo, boa orientação e constância. E também sorte, mas sem aguardar a que venha soa. E agora deixa-me perguntar a mim, que me vais cantar o sábado?

Foto: La Voz de Galicia