Ángeles Gulín

O primeiro comentario dedicado a uma das grandes vozes da história recente tinha que ir para Ángeles Gulín. A Galiza tende a ser um pais pouco preocupado com os seus artistas que não aparecem na história oficial de nenhuma das duas ideologias dominantes, por isso a maior parte da sua gente desconhece que era galega uma das vozes mais singulares do século XX.

Ángeles Gulín (Ribadávia, 1939-Madrid, 2002) tinha uma voz era colossal, duma sonoridade imensa e homogeneamente redonda no agudo e no grave, o que se chama uma soprano dramática. Este tipo vocal é escaso em quantidade de vozes puras mas nao no repertório, especialmente na obra de Verdi, Wagner e dos compositores veristas mas temos exemplos anteriores como Norma de Bellini, Maria Stuarda de Donizetti ou mesmo a própria Rainha da Noite de Die Zauberflöte de Mozart, papel este com o que debutou a Gulín.

O facto de que se produza este desequilíbrio entre a abundância de roles e a escasseza de vozes provocou que os papes escritos para este tipo fossem amiúde interpretado por vozes não exatamente dramática, com resultados como a desproporção entre o registros agudo e grave, falta de cor para essa personagem -que às vezes tentava-se solucionar com um excessivo escurecimento artificial da voz- ou o abuso do squillo, esse brilho vocal que têm especialmente algumas vozes que permite que sejam ouvidas em toda a sala nos momentos de maior dramatismo e intensidade orquestral.

Mas a Gulín era uma dramática de arriba a baixo, o melhor jeito de comprová-lo é ouvi-la. Proponho este “Suicidio” de La Gioconda de Ponchielli.

Aqui pode-se apreciar como o seu brilho vocal é proporcional ao enorme corpo da sua voz, redonda e homogénea desde os agudos até um assombrosamente natural registo grave, como mostra no comovedor “fra le tenebre”. Porém, ter um bom instrumento não é suficiente, e a Gulín era ademais uma grande artista com uma enorme expressividade e capacidade declamatória.

E não me resisto a acabar este comentário sem deixar este “In questa regia” da Turandot de Puccini.

Infelizmente, uma enfermidade fez que deixasse a sua carreira em 1989 privando-a se calhar da sua etapa de plenitude. Se ficastes com ganas de mais cousas, podeis encontrar outras gravações no Youtube ou no seu perfil do Spotify.