Quem castramos hoje?

Figemos na anterior entrada uma breve introdução aos castrati e prometemos mais um par de posts para continuar a falar do tema. Apesar de que este tipo vocal perdeu o favor do público a finais do XVIII desaparecendo da cena lírica -não do Vaticano, onde se continuou com estas práticas durante um século, questão que trataremos o próximo dia- estas óperas continuam a ser programadas nos nossos dias. E, se já não há cantantes castrados na atualidade, quem pode interpretar hoje os seus roles? Utilizaremos a ária “Va tacito e nascosto” do Giulio Cesare de Georg F. Händel para ver três possibilidades diferentes.

Visto que se trata de um personagem masculino de registo vocal feminino, uma alternativa bastante lógica é a de empregar um contratenor, isto é, um homem que pode cantar em tessituras similares às dos castrados mediante a técnica do falsetto. Esta é a solução mais próxima ao contexto da época desde o ponto de vista cênico (pois utiliza-se um homem para um personagem masculino) e não diverge em excesso do que seria um timbre do castrado. Mas esta opção tem um senão, pois a técnica do falsetto não permite geralmente que a voz tenha uma grande sonoridade, o qual pode constituir um problema tanto no balanço com as demais vozes quanto numa insuficiente sonoridade em determinados teatros. De facto, há director@s musicais que utilizam contratenores para as gravações e outras fórmulas para interpretações ao vivo. Eis uma mostra de um dos grandes contratenores dos últimos tempos, Andreas Scholl.

Como estamos diante de um registo vocal feminino, a opção mais empregada até a recente proliferação dos contratenores foi a utilização de voces de mulher, especialmente de mezzosopranos, as mais semelhantes por timbre e por tessitura às dos grandes castrati do passado. O principal aspeto divergente está no facto de serem mulheres interpretando papeis masculinos mas, se gostamos de quem canta, que mais tem o seu sexo? Propomos esta versão de Janet Baker, que está em inglês por ser uma produção da English National Opera, teatro que só programa óperas nesta língua embora tenha de traduzi-las.

Finalmente, oferecemos uma terceira solução: uma voz masculina que cante a parte do castrado mas num registo de uma oitava mais grave. Manteria-se portanto a presença de um homem para um papel masculino e podendo interpretá-lo na sua tonalidade original. A voz que melhor encaixaria para esta prática seria a dum barítono, que é o registo natural de peito da maioria dos contratenores. Mas também temos aqui outro senão, pois nas cenas de conjunto, o facto de situar o registo uma oitava por baixo pode provocar que determinados intervalos apareçam sistematicamente invertidos, modificando a ideia que tinha o compositor em mente. No entanto, se quem canta é Dietrich Fischer-Dieskau é possível que nos esqueçamos deste detalhe no momento.

Dito isto, devo confessar que não tenho uma postura apriorista sobre este tema. Qualquer opção me parece legítima desde que goste da pessoa que cante.